Manchetes Reeditadas

Chega a ser nostálgico esse clima de espanto, difundido pela imprensa, teatralizado pelas autoridades públicas, e tratado com o menosprezo tradicional pelos cidadãos que comentam as notícias. Falo da mais recente leva de “denúncias inéditas” sobre a tal “Máfia dos Caça-níqueis” ou do “jogo-do-bicho”, ou qualquer dessas pragas similares.

Todo mundo está falando tudo o que foi falado antes, e antes, e antes. E essa falta de novidades torna o trabalho de pesquisa e informação realmente muito chato.

Que os esquemas dos contraventores têm força descomunal há muito tempo, não é novidade. Em todas as grandes metrópoles brasileiras. A PF sabe, a PCs sabem, a PMs sabem, as secretarias de segurança que mandam nas PCs e PMs sabem, o governador que manda na secretaria de segurança que mandam nas polícias sabem, os deputados estaduais que fiscalizam o governador que manda na secretaria de segurança, que manda nas polícias sabem, o povo que fiscaliza as assembléias legislativas que fiscalizam o governador que manda nas secretarias de segurança que mandam nas polícias sabem. Até a imprensa sabe que todos sabem, inclusive ela, que explora matérias sazonais sobre esse mesmo tema, e repentinamente, com a mesma sazonalidade, se cala, olvidando-se de seu importante (quiçá único) papel no jogo democrático, que é denunciar o que está errado, e continuar denunciando quando o que está errado permanece em seu status quo ante.

Será que dessa vez seria diferente? Ou a proximidade do período eleitoral é que causa essa revoada de lixo no ventilador, e em breve, finda a tempestade, nos basta esperar pela nova leva de notícias da série “mais do mesmo”. Sério, dá para escrever artigos rapidamente, estilo “copia e cola”, é só mudar as datas e, eventualmente, algum dos nomes dos envolvidos. Estou esperando esse circo pegar fogo há tempo demais.

O caminho apontado pela sociedade média é liberar geral, legalize-se tudo, é cada um por si. Os estudiosos tecem lá suas críticas, e continuam estudando para elaborar novas críticas, para os mais novos escândalos, velhos escândalos de sempre.

E enquanto isso, a jogatina corre solta, no mesmo esquema do tráfico de drogas. Ou será que ninguém nunca pensou nesse paralelo? Ora, se é tão falado por aí que o usuário é que financia o tráfico de drogas, não menos óbvia é a conclusão de que são os populares, inocentes e injustiçados, que mantém viva a chama da contravenção, financiando desde carnavais com alta captação de valores do erário público, até atentados terroristas no meio da cidade.

Será uma batalha sem fim? Ou o fim é protelado porque os interesses passam longe, e bem mais alto, do que aqueles visados pelos notórios contraventores? Ricos e famosos, adorados nos carnavais. Ricos e famosos delinquentes.

Ora, dê-nos um tempo dessa hipocrisia, todos os que vêm bradando indignação por aí têm o poder, e alguns até o dever, para fazer com que se acabe ou se deixe essa situação menos imoral. E se não o fizeram, não o fazem, ou nem virem a fazê-lo, tudo bem, tudo bom, vida que segue, estamos nos acostumando. Só não me criem falsas expectativas. Sou policial, e no Rio de Janeiro. De falsas expectativas já estou cheio.

Ano Novo 2008 – 2009 no Rio de Janeiro

Reveillon 2008/2009 em Copacabana. Ou melhor, Festa de Ano Novo, porque reveillon é pra inglês ver. Um festival que reúne milhares de pessoas na praia mais cara da capital do Rio de Janeiro. Fui duas vezes, e no geral, não gostei. Muito tumulto, muita desordem urbana, ambiente totalmente desaconselhável para um policial. Só os fogos eram bonitos, na época em que se podia admirá-los, ao invés da fumaça de pólvora que hoje esconde tudo.

Mas muita gente ainda curte aquele empurra-empurra, falta de banheiros públicos, consumo de drogas ao ar livre e demais brindes que acompanham. E quando vê uma notícia com um título como este do jornal Globo, deve ficar menos preocupado em levar a família: “Policiamento no réveillon será 42% maior do que no ano passado“.

Daí, ponho-me a matutar sobre o caso. Vamos aos seguintes pontos de raciocínio:

policiais dormindo na viatura1. Do ano passado para cá, foi realizado concurso para a PMERJ, com 2.100 vagas para a capital. Confesso que não sei quantos passaram, mas tradicionalmente não se consegue preencher todas as vagas para soldado PM. Algum amigo leitor poderia complementar este dado em nosso artigo.

2. Que uma boa parte dos homens e mulheres que fazem concurso para serem policiais militares, não trabalham na Polícia Militar, por diversos motivos. Estão na ALERJ, DETRAN, CEDAE, Instituto de Pesos e Medidas, Polícia Civil, secretarias… teve um do último concurso que nunca trabalhou na PM, já entrou sendo lotado no Palácio Guanabara!

3. Teve início no morro Dona Marta, bairro Botafogo, cidade do Rio, um sistema de policiamento comunitário, e mantém baseado considerável efetivo da PMERJ. Por enquanto, diz a mídia tradicional que é um sucesso, o crime acabou (a ocupação continua e este subscritor torce, de coração, para que dê certo, e que seja tudo isso que falam mesmo).

4. Só este ano, quase 100 policiais militares do Rio foram assassinados, conforme contagem do revelador blog Praças da PMERJ. Muitos (que nem deveriam estar na PMERJ, diga-se) estão presos. Outros tantos foram expulsos, não sei o número exato mas eventualmente alguém se gaba destes dados em entrevistas, mostrando o quanto trabalham para punir os ‘maus policiais’ (verdadeiro oxímoro, creio eu).

5. A escala de trabalho padrão da PMERJ é de 24 horas de trabalho por 48 horas de folga. Aqui um adendo: é desumano e atenta contra a saúde e sanidade mental de um profissional que labuta em um ambiente inóspito como é o da segurança pública, ainda mais em uma cidade violenta como o Rio. São bem mais que 44 horas semanais, e sem direito à hora extra, adicional noturno, ou qualquer compensação do gênero.

6. Frequentemente, MUITO frequentemente, o PM é destacado para trabalhar no horário de folga, para aumentar a presença policial em eventos, como jogos de futebol ou shows promovidos pelo poder público. Mais grave ainda, são convocados para trabalhar na folga também em eventos promovidos pela iniciativa privada, que geram lucros (bem gordos) à particulares, como no último show da cantora Madonna, ou aqueles patrocinados por grandes empresas e realizados nas praias.

dormindo em servico

7. Para compensar com salário de, em média, R$1.000,00, o policial militar (bem como os policiais civis, agentes penitenciários, bombeiros…) faz “bicos” em sua folga. Ou seja, quase todos têm um segundo ou terceiro emprego, e o tempo que deveriam estar descansando física e mentalmente das 24 horas de serviço (de alta periculosidade), estão, novamente, trabalhando – muito frequentemente também em condições precárias – para a iniciativa privada.

Ah, tá bom Eduardo, você está repetindo tudo que todo mundo já sabe. Onde queres chegar???

Muito simples, meu caro gafanhoto. Eu, quando leio a mencionada manchete, não penso que as festividades vão ser mais seguras, que tudo está melhorando.

Penso que, em outros lugares da cidade, como no bairro onde moro, o policiamento já inexpressivo vai tender a zero (sem piadinhas de que moro maaal 😉 ).

Penso no PM que estará lá, patrulhando a orla de Copacabana ou outro lugar de festividades, e estará desmotivado por ter um salário muito aquém do que merece; que estará, certamente, chateado por seu dia de serviço cair numa data em que é legal ficar com a família, como todos lá estarão (normal, isso faz parte do ofício); que estará apreensivo por ser um candidato potencial à próximo policial assassinado nesta cidade; que é submetido à um regime disciplinar militar totalmente incompatível com nossa Constituição cidadã; que muito provavelmente não vai contar com um local para ir ao banheiro durante todo o serviço, e terá que pedir favores à comerciantes ou moradores locais neste sentido; no policial militar que, em seguindo a tradição de outros eventos, deverá se alimentar a noite toda de um simples sanduíche, fornecido pelo Estado.

Ou, pior ainda, penso no policial que lá estará, mas que fora convocado para reforçar o policiamento em sua folga. Ele teve a sorte de pegar a festiva noite da virada do ano em seu dia de folga, mas teve a má sorte de ter sua folga sumariamente revogada, inaudita altera parte.

Penso, sim, que o público que lá estiver, terá 42% mais chance de se deparar com um policial extremamente desanimado, mal-humorado, e com a cabeça em outro lugar, contando as horas para se liberado do trabalho extra, não remunerado, em seu dia de folga. E que há 100% de chance deste policial estar desmotivado, cansado, sonolento, se sentindo injustiçado, e pensando se 2009 será um ano melhor, ano em que ele vai conseguir aquela segurança VIP que paga 100 reais por dia, ao invés dos 40 que atualmente recebe.

E o chato é que o PM de serviço/folga nem vai poder desfrutar da internet banda larga de grátis em Copacabana, para qualquer um, pobre, rico ou milionário, bancado pelos cofres públicos. Fazer graça explorando o sacrifício e dificuldades dos outros é mole…