Suspeito para Sempre

Dia desses, era tomado o depoimento de uma mulher em um inquérito policial. Um caso clássico de “saidinha de banco”, no qual os criminosos seguem a vítima que retira dinheiro em instituição financeira, para assaltá-la. Muito, muito comum aqui na Cidade Maravilhosa, frequentemente com vítimas fatais.

Dessa vez, porém, os bandidos se deram mal. Um policial de folga presenciou o roubo, e, percebendo que o criminoso iria atirar contra a vítima, que resistia a entregar o dinheiro, interveio, quase sendo baleado, mas conseguiu reagir e ferir um dos assaltantes. O outro assaltante largou para trás seu parceiro de crime, e conseguiu fugir.

Para a sorte do assaltante ferido, como o crime estava sendo cometido em uma rua muito movimentada, passava uma ambulância, que o levou para o hospital… onde, para a sorte dos cidadãos de bem, acabou morrendo.

A testemunha que prestava declarações era esposa do criminoso morto. Este fato aconteceu há alguns meses atrás, mas como ela havia se mudado para outro município, só agora era ouvida. Revelou que, à época da ocorrência, ficara indignada, pois no hospital, o policial militar de plantão lhe dissera que, com certeza, pela localização dos tiros, o bandido havia sido executado. Lá ela conseguiu o nome do policial civil que tinha ido até o hospital.

Em casa, procurou na internet o nome deste policial, e viu notícias de uns 6 anos atrás, sobre a morte suspeita de alguns traficantes em uma determinada favela. Diversos policiais estavam sendo acusados de executar barbaramente dois homens que já estavam detidos.

A esposa do assaltante neste momento já pensava em procurar o Ministério Público e associações de direitos humanos. Ora, o policial que atirou em seu marido era um “matador perigosíssimo e bárbaro”, segundo os jornais, e no hospital, outro policial lhe garantiu que ele foi executado. Se viu tentada a levar o caso para a imprensa, denunciar a suposta execução sumária. Mas ficou com medo, e desistiu. Seu filho, ainda criança, jurou que iria se tornar Delegado de Polícia e um dia prenderia esse policial, queria olhar no olho dele, chamá-lo de assassino, se vingar fazendo o certo. A sogra, que também compareceu na delegacia, revelou que rezara para que todo mal abatesse o policial e sua família, fez despacho e tudo.

Contada a historinha, vamos aos fatos: O policial, cujo nome ela conseguiu no hospital, não tem nada a ver com a reação ao roubo que fora praticado. Este policial apenas foi mandado para o hospital para tomar conta do bandido ferido, já que, se ele ficasse vivo, deveria ser preso em flagrante por roubo. Azar desse policial, que anos atrás havia sido acusado injustamente da morte daqueles traficantes, e, só por isso, já fora visto imediatamente como “matador” pela nossa testemunha. Uma coisa levava a outra.

Porém, o que as buscas feita pela testemunha na internet não revelaram, foi que esse policial, apesar de ter sofrido muito na época, quase perdendo o emprego, foi inocentado pela Justiça, provando que agiu corretamente e dentro da lei. O clamor popular gerado pela imprensa, e sua exploração sensacionalista não foi mais forte que as provas da verdade. Mas se você fizer buscas procurando o desfecho do caso, nada vai encontrar. Dezenas de reportagens acusando o policial, com fotos e entrevistas do secretário de segurança da época humilhando o servidor; a corregedoria declarando que o servidor seria demitido. E nenhuma reportagem comentando que depois o policial foi inocentado, restaurando sua moral, revelando que ele era inocente de todas aquelas acusações.

Veja só, após tanto tempo, por um conjunto de fatores sem conexão, este policial poderia se ver novamente nas capas dos jornais, sua vida vasculhada, sua moral achincalhada. Tudo porque, na exploração midiática, não há regras. Acusa-se, condena-se e fim de papo; igual fazem os traficantes nas favelas. Não importa se o cara era inocente na verdade, quem tinha que se promover já o fez, quem tinha que ganhar dinheiro já ganhou, e ponto final.

Hoje, nossa testemunha já recolocou os pés no chão. Quando dissemos que o policial amaldiçoado por eles por um bom tempo, não foi o que atirou contra o ladrão, ela ficou chocada. Hoje reconhece que seu marido era criminoso, e que buscou a própria morte no afã de manter seu vício em drogas e ganhar dinheiro fácil, na vida do crime. Percebeu que era o marido bandido quem a mantinha numa vida miserável, e agora, sem ele, finalmente ela tem uma vida digna conquistada com seu trabalho. E seu filho quer ser policial. Agora, só resta torcer para que as maldições e pragas feitas contra o policial que entrou de bucha na estória, não tenham dado certo…

Bandido bom, seria o vivo

Crônica Policial contos policiais

Lendo este post do blog Depoimento Anônimo, lembrei-me do (longo) tempo em que trabalhei no interior do estado. Nos primeiros anos, tinha escolhido trabalhar na Seção de Homicídios e Entorpecentes. Éramos duas seções em uma, pois 99% dos homicídios da cidade eram ligados ao tráfico de drogas. Cerca de 25 mortes por mês.

Investigar homicídio é a melhor função na Polícia Civil, é um dos trabalhos mais prazerosos quando temos sucesso (só perde para sequestro, mas essa eu ainda não experimentei). Mas não esses homicídios do tráfico. Raramente se consegue reunir provas, todo mundo tem medo ou se favorece com o tráfico de drogas, ninguém te dá informação. E quando você conclui uma investigação e vai prender um assassino, descobre ele mesmo já foi assassinado por sua própria quadrilha, ou morreu em confronto com policiais. Um saco.

Mas, replicando o tema do Depoimento Anônimo, lembrei-me de uma investigação passada. Um traficante de uma determinada favela estava em casa, com sua mãe, duas irmãs, cunhado, prima, primo, cachorro e papagaio. Eis que traficantes de outra quadrilha cercaram a casa para matá-lo.

Cheguei ao local por volta de 3 da madrugada. A casa de alvenaria parecia um queijo suíço, tinha mais buraco que parede. O traficante e a mãe estavam internados na CTI do hospital local, ambos baleados. As duas irmãs, cunhado, prima, e primo estavam mortos, espalhados (literalmente) pelo chão da casa. Até o cachorro foi alvejado por dois disparos, e o papagaio deve ter fugido, já que não encontramos o corpo.

Após a perícia no local, fui para o hospital, com um formulário de depoimento em mãos, prancheta e caneta. Não sabia se o criminoso-vítima resistiria aos ferimentos, e não quis arriscar. Fomos eu, e o então chefe da minha seção.

O bandido baleado deu informações, e apontou apelidos dos autores. Voltei na Delegacia, peguei as fotos deles em nossos arquivos (já eram figurinhas conhecidas), e segui novamente para o hospital. Colhi as declarações com detalhes da investida criminosa, e fiz o reconhecimento por foto dos criminosos. Beleza, era só indiciá-los, ouvir mais umas testemunhas, juntar algumas provas que eu já tinha conseguido, e pedir a prisão. Trabalho rápido e eficaz.

Na semana que se seguiu prendemos uns 5 bandidos, relatamos o inquérito, o promotor pediu a prisão preventiva, e me esqueci do caso.

Um ano depois, de todos esses personagens, apenas eu e os presos estávamos vivos. O criminoso-sobrevivente e sua mãe tiveram alta hospitalar, se recuperaram, e foram mortos no estado do Espírito Santo meses depois. O meu chefe foi assassinado por 3 PMs em uma festa junina, com direito a “tiro de confere” e tudo no meio da multidão (esse é outro caso, nós investigávamos um grupinho de extermínio deles, outro dia eu conto).

Fui convocado para depor como testemunha de acusação, no Tribunal do Júri local. Já tinha ido depor três vezes na audiência de instrução, e apontado o dedo na cara dos marginais reconhecidos. Fui ouvido, eu e mais dois policiais militares da P2. Confirmei tudo que tinha investigado, confirmei que, em vida, o criminoso-vítima tinha reconhecido por foto os réus que estavam ali em plenário. Aliás, nem todos, já que dos cinco, só dois ainda estavam vivos.

Ao final a surpresa. O criminoso-vítima e sua mãe, depois que saíram do hospital, tinham sido chamados a depor, e disseram ao juiz que era mentira que tinham feito o reconhecimento por foto no hospital, que eu e meu chefe que inventamos essa estória; mesmo tendo eles assinado o auto de reconhecimento, com testemunhas. Meu ex-chefe jazia em uma gaveta de cimento armado na parede do cemitério local, e não podia confirmar minha versão. Ficou minha palavra contra a dos bandidos, que se diziam inocentes, e da própria vítima.

Findo o Júri, os dois foram absolvidos. E eu, voltei, já resignado, para casa na capital, imaginando quanto tempo levaria para que os dois absolvidos fossem mortos por aí. No fim das contas, contabilizei uma vitória pessoal: uma boa investigação. Missão cumprida.