Início » Coluna Opinião

Sordidez Burocrática

Publicado em 06/04/2010 - Categoria: Coluna Opinião

Sordidez Burocrática

** por Fábio Domingos da Costa

“Se alguma coisa que foi feita para não funcionar, não funciona, então está coisa está funcionando”

Uma das maneiras que as máfias italianas fizeram para lavar o dinheiro ilícito ganho a partir do tráfico de drogas exploração do jogo e da prostituição para dar caráter legal aos seus negócios foi entrar em parceria com o Estado. Elegeram membros para o legislativo e também para o executivo com apoios financeiros que posteriormente eram revertidos muito mais do que a simples defesa de seus direitos mas na participação direta destes. Nessa participação o Estado emperra e só funciona através do nome de algum figurão, a empresa prestadora de serviço deve ser ligadas a ele, licitações são vencidas por aqueles que participam deste rol.

Roberto Saviano, jornalista e autor do livro Gomorra, ilustrou em recente entrevista a Globo News, que mafiosos detinham o controle do lixo, neste trabalho ofereciam um serviço caro com um projeto imbatível de arrecadação do lixo e destinação, tais empresas só poderiam atuar a partir de certificações ambientais. Tudo passa pelas mãos deles, mas o serviço não é executado e conseguem certificação do Estado por terem total controle, é a corrupção como norma, fazendo parte do cotidiano da estrutura burocrática. Conhece algum lugar assim?

Sem atravessar o Atlântico, assistimos aqui com certa frequência e semelhança que podemos comparar. Uma que é a forma embrionária das máfias através da organização criminosa vista nas milícias, onde por lacuna administrativa grupos passam a oferecer serviços a comunidade, esses grupos mais adiante começam a integrar o corpo Estatal através de mandatos eletivos e também fazendo parte do executivo. Outra frente são os já possuidores de mandato que começam unidos ao executivo fazer parte da máquina administrativa, mantendo empresas prestadoras de serviço onde o Estado, através da terceirização, paga por um atendimento de baixa qualidade apesar dos elevados preços praticados, criam ainda centros de atendimento assistencial, emperram a máquina pública para só funcionar com a intervenção destes. Ao utilizarem-se dessas práticas e estratégias ganham de todos os lados, tanto financeiramente como eleitoralmente. O ganho financeiro é auferido através da prestação de serviços “realizado” através de suas empresas. O ganho eleitoral é decorrente do agradecimento popular; a ineficiência do Estado faz com que o cidadão acabe sendo vitima e cúmplice deste conluio, pois mantém-se fiel a esses grupos que fazem as vezes do Estado provendo esse cidadão com suas necessidades ou mesmo exigindo fidelidade através de pressões, coações e até mesmo ameaças. Resumindo, essa prática reprovável não deixa de ter seu condão “mafioso”, infelizmente ao auferirem poder econômico e eleitoreiro esses grupos tendem a multiplicar cada vez mais os seus tentáculos sob toda a sociedade.

Muitos dizem que o momento da mudança ocorre com as eleições e que o povo tem o político que merece. Em parte isso é verdade, mas acreditamos que talvez falte ao povo à opção de escolha. O eleitor é sistematicamente enganado e manipulado principalmente através do poder da mídia; sendo levado a crer nestes candidatos, seja pelo interesse pessoal e pelo favorecimento, seja pela exploração de sua própria ambição, é bem verdade que isso acaba culminando com a venda da sua cidadania.

Mas e o Estado? Não é ele que tem o poder da fiscalização e o da tutela? Através de suas instituições não deveria combater esses abusos? Estariam essas instituições impregnadas com interesses particulares decorrentes da ocupação de cargos e apadrinhamentos?

De nada valem os impostos pagos, aja visto as dezenas de faixas que vemos em agradecimento pelos serviços públicos essenciais executados, como asfalto, luz, limpeza, poda de árvores e benfeitorias. Não é exatamente para isso que pagamos, ou eles têm destino difuso? Talvez o retorno para as mãos sujas de grupos que se organizam no intuito de enriquecer com o dinheiro público. E o pior é que quando se tem ação efetiva de término de poder em determinada área sob domínio da milícia, por exemplo, o Estado não provém os serviços, ficando o povo a mingua, restando então a saudade daquela outrora exploração que contudo apresentava algum serviço. Verificamos assim, com pesar, frustração e profunda tristeza que a tão sonhada democracia conquistada a duras penas acaba sendo sufocada por grupos espúrios que corroem o Estado e hipocritamente se apresentam como substitutos e salvadores desse Estado.

Afinal, de quem é a responsabilidade pela administração do Estado? Do povo, ou dos poderes constituídos? E estabelecido isso, a quem devemos recorrer no caso da incapacidade e ineficiência dos responsáveis?

Fábio Domingos da Costa ** – Agente de Polícia Federal

9 comentários »

  • Soares comentou:

    Prezado,

    Difícil encontrar uma resposta definitiva para essa questão.

    Mas, a longo prazo, se continuarmos elegendo projetos desenvolvimentistas baseados em copas do mundo, corrida de carros e outros espetáculos que enchem os bolsos das empreiterias, e, sobretudo os empresários do ramo hoteleiro e adjacentes, o cidadão será cada vez menos autônomo.

    Os países que são tão comumente citados pelos gênios da política e do empresariado brasileiro, sempre investiram em pesquisa e bem ou mal têm o sistema de saúde público de verdade. A Inglaterra, a mãe do liberalismo econômico, tem sistema de saúde público, nos Eua, houve uma enorme reforma no sistema de saúde rumando-o para assistência pública, qualquer pessoa capacitada que queira fazer um mestrado ou doutorado tem inúmeros fundos públicos a sua disposição para viver e dedicar-se somente aos estudos nesses países, França e Alemanha então nem se fala…

    Apesar de tudo isso, alguma coisa não está realmente mudando? Por exemplo, quando comecei na advocacia coisa de uns 15 anos, eu mal chegava num cartório e serventuário já vinha me prestar continência querendo dinheiro, hoje há outra mentalidade predominante, gente concursada que trabalha muito e honestamente, buscando fazer novos concursos e ter maiores responsabilidades.

    Abs,

    Soares

  • Machado comentou:

    Caro Eduardo,
    Sei que você é atarefado pois com certeza a vida de um policial não é mole.Mas,ve se não deixa a gente na mão sumindo tanto tempo.kkkk
    Eu procurei na página, e não achei nada que diga respeito ao acontecimento na delegacia da Pavuna.Seria te colocar em uma situação indelicada pedir uma análise sua? Se for, peço desculpa desde já.E,queria te informar que já estou estudando para Investigador até por que, acho que nem tão cedo sai este concurso. Um abraço e ve se não some…

  • Eduardo comentou:

    Opa Machado!

    Não deixei o blog de lado, o pessoal tem me cobrado por e-mail também! Hehe venho cuidando da parte administrativa, os bastidores, atualização de software, etc, um saco. Mas ao mesmo tempo, em verdade, estou sem motivação para escrever novos artigos. Mea culpa.

    O lance da Pavuna não foi nada demais, o policial perdeu a cabeça, como acontece com muitos. Não há qualquer amparo psicológico, o policial pode ser obrigado a matar uma pessoa para se defender hoje, e amanhã vida que segue, se o cara não aguentar o fardo de ter tirado uma vida, o problema é dele. Essa é a realidade.

    Existem pessoas que apresentam problemas evidentes, os chamados “problemáticos”, mas nenhum superior hierárquico enfrenta a situação, preferem “empurrar” o problema adiante, transferir o servidor ou deixá-lo entrar de licença médica por qualquer coisa.

    Não conheço os envolvidos pessoalmente, mas o tipo de situação que ocorreu, soube, é de tirar do sério qualquer policial. Então, se o cara já não está muito bem, dá nisso.

    O que espanta é que não aconteça com maior frequência…

    No fim, a constatação do mesmo que debatemos aqui em cada artigo: segurança pública é uma coisa que não é levada a sério nos estados brasileiros.

  • Patrícia. comentou:

    “Afinal, de quem é a responsabilidade pela administração do Estado? Do povo, ou dos poderes constituídos? E estabelecido isso, a quem devemos recorrer no caso da incapacidade e ineficiência dos responsáveis?”

    A falta de consciência política é vantagem para eles, pois assim existe a certeza de que nada mudará. A comercialização de votos continuará, não apenas pelo pobre. Isso vai de cesta básica até “mimos” mais palpáveis, digamos assim.
    As pessoas acham que é perda de tempo procurar saber a respeito da trajetória política desses caras, aí vão colaborando com esse ciclo vicioso.

  • Machado comentou:

    Eduardo,
    Já que você citou a questão do acompanhamento psicológico,eu queria saber uma coisa.Policial militar tem um hospital. No caso de policiais civis, eles costumam ser atendidos em que hospital?

  • Arthurius Maximus comentou:

    Responder a essa questão passa pela conscientização do eleitor de que é dele a culpa por tudo isso. Ao votar mau e displicentemente, colaboramos para que fatos assim ocorram. É o próprio eleitor, notadamente os mais pobres e menos instruídos, que se transformam em seus próprios algozes ao elegerem e reelegerem corruptos notórios, políticos que jamais fizeram nada de concreto em seus mandatos e tantos outros “salvadores da pátria” de plantão.

  • JONAS comentou:

    dilma ou lula o povão sem opção hehehe e no rio já basta de PMDB!!!!!!!!!

  • Marcos Arantes comentou:

    Estamos vendidos ao acaso desses espúrios e hipócritas,que democracia é essa!!!! Até as Universidades Públicas, o seio dos intelectuais, pesquisadores renomados, frente política do PARTIDÃO, estão sendo tomados por essa febre do poder e do dinheiro, usando o nome da Esquerda e do Socialismo, que vai direto pro bolso, com o superfaturamento, licitações marcadas. Que vergonha, que país é esse. Essa é a Universidade que queremos para os nossos filhos?

  • Sordidez Burocrática | Blogosfera Policial comentou:

    […] Sordidez Burocrática abril 6th, 2010 […]

Deixe seu comentário!

Escreva seu comentário abaixo, ou faça um trackback do seu site.

Aviso: Você pode comentar esse artigo e expor suas idéias. Mensagens com palavrão, ofensas, injúria ou difamatórias serã o sumariamente excluídas. Exerça seu direito de expressão respeitando o direito de terceiros.

Gravatar habilitado. Para ter uma imagem pessoal exibida, registre seu Gravatar.