Imagine Você Amanhã

Não raro, chega na caixa de mensagens do Caso de Polícia algumas mensagens que me fazem parar para pensar. Foi uma delas que me levou a escrever este artigo.

Imagine você, um policial civil, hoje na ativa, no Rio de Janeiro. Foquemos no Rio pois é o que conheço, mas serve para qualquer unidade da Federação.

O valor do salário é totalmente incompatível com a complexidade e risco do trabalho, mas ainda assim, um valor razoável em um país concentrador de renda como o Brasil. Então você recebe lá, uns 1.700 reais. A escala de serviço permite que, nos dias de folga, você possa ter um segundo emprego. Há quem diga que esta escala existe até hoje justamente para possibilitar o complemento de renda do policial, enquanto a eficácia da segurança pública e a dedicação do servidor para com ela é secundária, irrelevante.

Aí você arranja um bom “bico” de segurança. Se tiver bons contatos, quem sabe numa rede de televisão dessas da vida, e tira ali mais, digamos, 3 mil. Ora, tudo perfeito, quase 5 mil de renda no mês, agora sim uma boa margem para custear uma família com dignidade.

Plano de saúde para você, sua esposa e sua filha recém nascida; aluguel em um apartamento modesto, mas fora de favela; aquele carro 1.0 mas completo, comprado em 48 vezes; roupas legais da C&A, aquele tênis com 200 molas que você sempre quis comprar; na geladeira tem sempre queijo, apresuntado, refrigerante, carne e gulosemas diversas; fins de semana, naquele meio-dia de folga efetiva, dá para levar a galera no shopping, e até fazer uma graça num fast food vez ou outra. Ninguém ousaria dizer que você não está bem de vida, tirando onda!

lata de lixo policialE o tempo passa, e você tem sorte, não é assassinado ou fica debilitado em função do serviço, chega a aposentadoria. O rendimento dá uma caída, o salário por exemplo cai quase pela metade, já que deixa de receber gratificações. No “bico” que você ainda mantém, a disputa para tomarem seu lugar é grande; são novos policiais, bombados, cheios de disposição. Mas como você é gente boa, é mantido com o emprego, e apesar da queda, sua renda ainda é razoável.

Sua filha já tem 13 anos, sua esposa anda doente, problemas de saúde por causa da idade, e tem dificuldades de se locomover; sorte ter você por perto, quando não está no “bico”. E você, morre. É, todo mundo vai morrer um dia, certo? Você morre de… infarto, um infarto fulminante durante o futebol de domingo com os amigos.

O dinheiro do “bico” deixou de existir para sua família. Você não está lá para ajudar sua esposa, doente, a cuidar da educação daquela menina de 13 anos, nas noites selvagens do Rio, nas baladas das drogas e dos bailes funks. Mas ainda tem o dinheiro da pensão, certo?

R$ 875,00. É o tanto e dinheiro que sua filha de 13 anos e sua debilitada esposa têm para pagar o plano de saúde, aluguel do modesto apartamento, comprar roupas, comidas e remédios. Só que o governo demora a começar o pagamento da pensão, o processo se arrasta alguns meses. Sem plano de saúde, sua esposa está lá, desde 4 da madrugada em uma fila de hospital público; ela pensa se vai conseguir comprar alguma coisa para almoçar mais tarde, tem que controlar o gasto daquela poupança que você conseguiu fazer durantes os anos. Sua filha está na balada ainda, e amaldiçoando a mãe por não dar dinheiro de mesada. O carro nem deu para vender, a financeira já tomou.

É, viajei um poco neste texto. A fonte de inspiração foi um e-mail com a seguinte mensagem: “Meu esposo era policial civil, (detetive inspetor), cumpriu 35 anos de serviço, aposentou-se e faleceu, hoje percebo uma pensão de 875,00 reais (…)”. De vez em quando recebo e-mails como este, pedindo orientação, e tento esclarecer alguma coisa, apesar de não ter bom conhecimento nesta área do Direito ainda.

Um irmão meu estava comentando que os tiras no Rio, os Inspetores, Oficiais de Cartório, Investigadores, etc, são chamados pelos ‘doutores’ da administração superior, de “passivos humanos”. Sim, somos o passivo humano da Polícia do Rio de Janeiro. Na contabilidade, o passivo pode ser definido como “um recurso controlado por uma entidade e um acontecimento passado e do qual se esperam que fluam benefícios econômicos no futuro”. Na área de direitos humanos a expressão passivo humano é usada para definir a parcela de uma população excluída, ignorada pelo Estado. Na Polícia, não faço idéia do sentido que têm estes termos, mas imagino que não seja elogioso, ou que devamos nos orgulhar.

Mas esta é a verdade que nos recusamos a enxergar, até que chega a nossa hora de experimentá-la. E se olharmos, percebermos a acomodação e inanição da classe… parece que tudo vai bem mesmo. Tudo muito bom, tudo muito bem. Vá entender…

9 ideias sobre “Imagine Você Amanhã

  1. A cada momento mais e mais provas qeu a honestidade não compensa neste país. A polícia tem seus próprios problemas como o relatado no post. Até pode-se dizer que foi “um pouco exagerado”, mas se formos pegar as histórias, a fundo, uma a uma, certamente encontraremos casos bem piores que o relatado. E o cidadão também tem seus mesmos problemas. Pois sai na rua sem saber se sua casa não será arrombada, não se encontrará com um tiro perdido, não será assaltado. Aconteça o que acontecer, ele ligará para a polícia, fará sua ocorrência e esta por sua vez não poderá fazer absolutamente nada, pois o país não oferece condições de se investigar as ocorrências e se prender os culpados e mesmo se por um sorte eles forem presos, a lei vai os proteger. Parece cena de novela, mas é a realidade… infelizmente…

  2. moral da historia…
    nada de futebol depois dos 30 🙂

    brincadeira a parte, achei bem realista, ja postaram situacoes similares aqui no forum

    edu
    como anda aquela tal lei que puniria os ‘bicos’, nao era uma criada no inicio das milicias que iria se enquadrar no CP?
    tem noticias dela?

    []s

  3. Infelizmente essa é a realidade de nossos policiais, que pode ser demonstrada com vários casos como esses:

    Há 4 meses fui ao enterro de um Soldado que morreu em um acidente de trânsito. A família dele não tinha dinheiro nem para pagar o enterro… Foi enterrado em uma cova rasa, em um cemitério de Caxias, graças ao “favor” de um Vereador daquele município.

    Um Subtenente que trabalhava comigo se orgulhava mais de seu segundo emprego de GARÇOM, do que sua função pública de policial. Exibia suas fotos, servindo no Copacabana Palace, com o amor e carinho que, só um emprego que lhe dá dignidade, pode gerar em um homem.

    Triste fim o nosso…

  4. Leandro, gostei da conclusão sobre a moral da história; doravante, não mais jogarei futebol aos domingos também. Só aos sábados hehe

    Ah, essa lei teria o condão de reprimir as milícias, mas dá margem para perseguir o policial que apenas trabalha como segurança. Não sei o andamento, deve estar na gaveta de algum trabalhador do Congresso hehe

    Luiz, enigmática este relato sobre o garçom. É trágico, e nas PPMM acho que é pior mesmo, a opressão é muito grande, e junto tem os baixos salários. Nas PPCC não se ganha bem, mas tratamentos entre sujeitos de hierarquia diferentes só fogem do normal em caso de perseguição, o que acaba sendo raro, já que a providência imediata é a transferência forçada. Não se pode esperar um bom trabalho de um homem que não tem uma vida saudável neste ambiente.

  5. Nas Varas de Fazenda rolam pensoes de PMs e PCs bem mais baixas. A PM e os Bombeiros, ao menos eles, tem núcleos da defensoria exclusivos, além da associação de classe que defende esse tipo de questão.
    De PM, por exemplo, já vi pensoes de 300 reais. Menos da metade da remuneraçao de um soldado em início de carreira. É duro quando um policial deixa a família…

  6. Por falar nisso, alguém poderia confirmar quanto tempo dura o curso de formação dos policiais civis e se realmente é pago bolsa de apenas 300,00 reais?

  7. “Mas esta é a verdade que nos recusamos a enxergar, até que chega a nossa hora de experimentá-la.” Essa sua frase respalda o texto de “Martin Niemöller” colocado aqui por você.
    As instituições estão enfraquecidas. Cumpre salientar a questão dos “Direitos Humanos”. Como ficam os familiares do agente do Estado? eles não poderiam viver em condições desumanas. As pessoas esquecem de levantar essas questões quando do falecimento de um policial. Cadê as passeatas? cadê o apoio de “determinados orgãos” que fazem estardalhaços em outros casos? … e por aí vai!
    Ao que parece, trata-se de um castigo para o funcionário que dedicou anos a fio de sua vida a uma instituição, e se não o fez em sua integralidade foi por falta de condições criadas pelo próprio orgão regulamentador dessas instuições que é o Estado, que sucateia determinadas instituições.
    Bem, enfim.. falamos e falamos e fica tudo na mesma. Trata-se de uma infelicidade, digo mais, trata-se sim de uma crueldade chacelada pelo Estado.

  8. quanto é o salário mínimo?não é obrigatório o governo seja estadual municipal ou federal pagar o soldo o mínimo, acho que está na Constituição Federal, o homem tem o direito ao mínimo para o seu sustento, se o salário mínimo é maior que 300,00 como é que alguém pode receber menos ,mesmo que esteja em curso, isso é inconstitucional, acho.

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