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O Sequestro, O Governo, e os Outros

Publicado em 22/12/2008 - Categoria: Crônica Policial

Charlie estava emocionalmente dividido. A Polícia estava em estado de greve, e ele era um dos maiores incentivadores das reivindicações. Mas ao mesmo tempo, na área de circunscrição de sua delegacia, um evento que já perdurava há mais de 2 dias fazia com que todos permanecessem de prontidão, tensão total.

Um marginal fora de controle, armado com uma escopeta calibre 12, dominava um grupo de vítimas, homens, mulheres e crianças. Dizia que não soltaria ninguém caso não fossem atendidas suas exigências. A imprensa cobria o evento bem de perto, tornando o criminoso o centro das atenções, a celebridade instantânea da hora. Ele chegou a conceder entrevistas, e confidenciou que já planejava escrever um livro falando do caso, tão logo fossem resolvidas algumas questões de ordem técnica.

Charlie aguardava no local. Quem dirigia os trabalhos era uma reconhecida equipe especializada da PM, todos muito amigos de Charlie. Principalmente Mike, que era o líder de uma das equipes táticas especializadas.

Mike não estava animado, o comandante de seu grupamento ocupava o posto de direção por indicação política, não sabia a troco de quê. Só o que sabia é que ele não era a pessoa mais indicada para coordenar aquele tipo de atividade.

Ao mesmo tempo, Charlie mostrava-se angustiado. Seus melhores amigos na Polícia estavam reunidos em uma passeata, que pretendia seguir até o Palácio Governamental. Mantinha o tempo todo contato por telefone, já que não podia sair dali. Não enquanto durasse o seqüestro.

Charlie e Mike conversavam, sentados no meio fio. O telefone de Charlie toca, ele atende.

Cara, deu merda, o pau tá comendo aqui, os caras começaram a atirar e tacar bomba na gente, teve colega saindo no braço com colega, uma confusão só! Mas fica tranqüilo que estamos conversando, logo logo essa palhaçada acaba, somos tudo polícia pô! Depois te ligo, fica na boa aí!

Charlie ficou pálido. Até Mike logo percebeu, e perguntou o que tinha acontecido. Charlie explicou, mas Mike minimizou, “ah, não deve ser isso tudo, nêgo não é louco pô, é todo mundo amigo, trabalhamos juntos. Teu colega deve tá exagerando por causa da emoção, fica tranqüilo. Temos que nos concentrar aqui…

As negociações com o seqüestrador já estavam bem avançadas. A cada hora que passava, os policiais sentiam-se mais confiantes, o tempo estava a favor deles. Logo o cansaço iria abater o criminoso; na verdade isso já teria acontecido, não fossem alguns erros do comandante. Mas tinha certeza que tudo ali iria acabar bem.

Já era quase noite quando outro policial chamou Mike. Charlie ficou observando de longe, curioso para saber se era uma novidade, se o seqüestrador tinha feito outra exigência. Mike passou correndo, preparando equipamentos, olhos esbugalhados, perplexo.

Recebemos ordens para invadir. Mandaram a gente invadir cara! – dizia, enquanto arrumava o material tático no cinto.

Porra, como assim invadir!? O procedimento está correto pô! Alguns erros, mas tudo vai indo bem. É questão de tempo terminarmos isso de uma forma muito positiva. Não tem sentido invadir, vai arriscar a vida daquelas pessoas à toa! Você sabe disso melhor do que eu!

Pô, eu sei, mas mandaram cara. Devem saber de alguma coisa que nós não sabemos, sei lá. Nós vamos entrar, eles devem saber o que estão fazendo. Estourar a porta e entrar, nós vamos entrar – disse Mike.

Cacete, já que é assim, dá um murro naquele bandido safado por mim, e boa sorte cara, te cuida!

. . . 2 horas antes, no gabinete do Palácio Governamental . . .

Sr. Governador, a situação saiu de controle lá fora. Os policiais estão se agredindo, é possível acontecer uma tragédia…

Não se preocupe, Sr. Governador – cortou o Assessor Para Assuntos de Interesse do Governo – eu já mandei ordens para acabarem com tudo logo, lá fora tem gente nossa, eles vão resolver o mais rápido possível.

Não é bem assim – falou mais alto o Assessor de Imprensa e Dissimulação – isso vai dar problema, os tablóides do país todo vão colocar isso na primeira página, vão cair de pau em cima da gente, e logo agora que está sendo escolhido outro governo. Vão falar disso até fora do país!

O poderoso governador então bateu a mão com força sobre a antiga mesa, mantida no gabinete desde os tempos do regime militar.

O que você quer que a gente faça então, seu infeliz!? Não posso demonstrar que sou alcançável! Sou o ser superior, o escolhido, o intocável. Essa gente do proletariado não pode chegar aqui, essa… essa ousadia, quem eles pensam que são!

Não Sr., não estou falando que não podemos usar de todos os meios possíveis para enfraquecê-los, se o Sr. acha que tem que bater, eu apóio, vamos bater forte! Mas é que, o Sr. sabe, estou aqui para que sua imagem não seja manchada, isso não pode ganhar destaque, temos que criar uma distração, como fazemos sempre que alguém descobre algum de nossos esquemas – disse, olhando para baixo, o Assessor de Imprensa e Dissimulação.

Então, o que propõe afinal?

Bom, tem um negócio aí, do outro lado da cidade, os tablóides só falam nisso. Parece que tem um seqüestro ou algo assim, que já dura um tempão. Eu pensava em usar isso no final, para mostrar o quanto nosso governo é bom, depois que prendermos esse sequestrador. Então, se isso acontecer logo hoje, a imprensa tá toda lá mesmo, vai dar primeira página, pensa só, “A Tropa do Governo coloca atrás das grades mais um criminoso, trazendo segurança para todo o estado…”!

Excelente, até que enfim você serviu para alguma coisa!

Mas Sr. Governador, isso não é assim – interferiu o Assessor Para Assuntos de Interesse do Governo – aqueles homens que estão lá nesse negócio de seqüestro não podem fazer as coisas assim, pode acabar em tragédia, e…

Ai, minha paciência… então você quer fazer uma chacina aqui em baixo, na rua em frente ao Palácio, mas não pode ter chacina lá? Aqui a situação é pior, envolve mais gente – disse o governador.

Pode ser uma tragédia – insistiu.

Então, quer melhor que isso? Esqueceu que aqui todo mundo é paranóico com tragédias, ninguém vai nem lembrar do que aconteceu lá fora, só vão falar disso! É brilhante!

Sou eu – disse o Assessor de Imprensa e Dissimulação, já falando ao telefone – é, é para invadir hoje, AGORA!… não interessa, depois a gente te transfere, sei lá, você diz onde quer comandar, a gente dá um jeito, mas manda os caras invadirem e acabarem com isso logo, agora… AH! E não esquece, deixa o pessoal da imprensa com acesso livre, para eles conseguirem fazer boas imagens, pra ficar bem comovente no jornal da noite.

6 comentários »

  • José Ricardo comentou:

    Fenomenal! Você tem o dom de prender o leitor até o fim da história. Charlie e Mike formaram uma boa parceria. Integração entre as políciais, isso é bom.
    Sobre as manobras governamentais para encobrir um fato provocando outro (que culminou numa tragédia) é melhor nem comentar, ou melhor, nem é preciso, você já disse tudo.
    Parabéns!

  • leandro p. comentou:

    uso as palavras do José como minhas.
    nem comentarei o fato em si, mas nota 10 pra ‘Crônica’

    Edu vai investir na carreira de jornalismo
    Gil Gomes ja ficou no chinelo, o proximo será o bonner?

  • Eduardo comentou:

    José Ricardo: agradeço as palavras amigo. E saiba que também não perco as excelentes crônicas do Universo Policial!

    Lenadro: kkk difícil hein hehehe obrigado.

  • Flávio Lapa Claro comentou:

    FINAL DE ANO

    Dizem que nenhuma amizade sobrevive a uma discussão sobre Política, Futebol ou Religião. Não sei se tal ditado se aplica a todo mundo, mas eu posso dizer que já tive algumas amizades abaladas devido às minhas convicções religiosas. Porque não suporto rituais. Missas, cultos, orações decoradas e repetidas (às vezes gritadas numa situação de histeria coletiva) sem que se atine para o seu sentido real…não me fazem a cabeça. Respeito quem curta esse tipo de coisa, mas a minha relação com o Ser Supremo é íntima demais para ser exposta.
    As comemorações religiosas, como o Natal, Páscoa, Paixão, dia de santo tal ou qual, perderam totalmente seu significado, até mesmo para os mais fervorosos devotos. Não sabemos o motivo nem a origem das comemorações, mas ainda assim gastamos todo o 13º salário comprando presentes para os outros. Como se isso nos fizesse seres humanos melhores e nos redimisse das nossas culpas.
    Nossa Constituição proíbe qualquer tipo de discriminação, inclusive a religiosa. Ainda assim, feriados religiosos existem às pencas. Mas para comemorar datas cristãs. Nunca ouvi falar de um feriado que comemorasse o nascimento de BUDA, ou de MAOMÉ, aqui no Brasil…
    É por isso que nunca me incomodou trabalhar no natal e não poder estar com a minha família. De fato, nestes 21 anos de Polícia posso contar nos dedos de uma das mãos as noites de natal em que não trabalhei.
    No entanto, neste ano estou me sentindo diferente.
    Ao acabar minha licença prêmio, a primeira coisa que fiz foi anotar a minha escala. Mais uma vez, escalado para: plantão no dia 24, e operação Papai Noel no dia 25. Isso me incomodou profundamente. Não pelo fato de ter sido escalado para trabalhar enquanto a grande maioria se diverte. Isso faz parte da profissão. Mas por todo o conjunto de acontecimentos relativos à Polícia Civil do Estado de São Paulo ocorridos durante o ano.
    Não só pela postura do GOVERNO e da JUSTIÇA frente às nossas reivindicações, mas pela clara demonstração que para os que estão no poder – isso inclui diversos colegas policiais – somos nada além de uma despesa inútil a ser controlada. Excluo deste rol o TRE-SP.
    Também pela postura da população de São Paulo, que, apesar de entender e, em grande parte, apoiar as nossas reivindicações, não conseguiu apreender a totalidade da situação, nem as causas da falência total dos serviços essenciais que o ESTADO deveria prover, e reelegeu prefeito o assecla mor do patrão, dando uma clara indicação que a situação de calamidade reinante nas áreas da Educação, da Saúde e da Segurança Pública que hoje presenciamos pode se prolongar ainda mais.
    Como se pode ver, não tenho muito a comemorar. Exceto o AMOR da minha família. Exceto a obtenção do tão almejado título de Enfermeiro, e a aquisição de todo o conhecimento relacionado. Exceto a drástica redução do número de seqüestros em São Paulo, conseguida graças a MUITO TRABALHO e DEDICAÇÃO dos meus colegas e amigos da Divisão Anti-Seqüestro, que, além de combaterem os criminosos ainda têm que conseguir tempo para participarem de todas as operações comédia que nossos superiores hierárquicos insistem em inventar, apesar de não fazerem parte de nossa função. Que ainda se dispõem a dar manutenção para as viaturas do Estado para que a população possa ter um atendimento minimamente adequado. Que usam seus próprios equipamentos para trabalhar, para que o risco corrido por uma vítima de seqüestro seja minimizado.
    Ainda assim, apesar de toda a frustração pelo ano que se encerra e a expectativa de que o ano vindouro seja ainda menos producente em termos de satisfação profissional e pessoal, espero que todos – em especial aqueles que, como eu, estarão trabalhando durante estes dias de festa, longe de suas famílias – tenham um ano com MUITA PAZ, MUITO AMOR e MUITA DIGNIDADE. E que as minhas expectativas sombrias demonstrem ser fruto de um raciocínio ilógico, totalmente equivocado.

    Abraços a todos.

    Flávio Lapa Claro
    Investigador de Polícia
    DAS/DEIC

  • Flávio Lapa Claro comentou:

    Onde escrevi TRE-SP, leia-se TRT-SP

  • Eduardo comentou:

    Agradecemos as bonitas e iluminadas palavras Flávio! E, otimismo, um dia chegaremos lá!

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