É importante ou não?

O direito de greve dos servidores públicos é um assunto controverso. E quando se trata de servidores da área de segurança, e em maior grau, da área policial, aí é que não se tem nenhuma segurança jurídica mesmo.

Para estudantes de Direito, soou mal o anúncio da última decisão do ministro Eros Grau, do STF. Já por fora da seara jurídica, tal decisão já era previsível, e ajuda a confirmar a suspeita de que o STF, de uns tempos para cá, deixou de lado sua função principal jurídica, e demonstra sua faceta política. E política da mesma espécie da praticada pelo que de pior conhecemos no cenário brasileiro.

O ministro cassou uma liminar que ele mesmo havia concedido anteriormente, aliviando sobremaneira a pressão que o governo de São Paulo sofria, com policias civis em todo o estado unidos e engajados, jogando no ventilador tudo de ruim que estava ligado diretamente ao chefe do executivo paulistano, José Serra.

O mote do artigo porém, é para levantar um fenômeno que sempre me impressionou. Quando policiais resolvem sair do lugar comum do espírito brasileiro, o conformismo, e ousam reivindicar direitos como profissionais e cidadãos, a reação é bem mais forte e perceptível. Por parte do governo, apegado à interesses que acabamos descobrindo anos depois, quando um ou outro acaba atrás das grades; mas sobretudo dos órgãos de imprensa tradicional (leia-se as mídias escritas e televisivas), que atacam, muitas vezes com deselegância assombrosa, os movimentos reivindicatórios.

Contudo, o mesmo não vemos quando processos semelhantes se desenvolvem em outros nichos. Uma greve de funcionários dos Correios por exemplo, afeta incontáveis atividades públicas e privadas, e abrange todo o território nacional. Mas nunca vi nenhum articulista de jornal famoso pregando que os carteiros são baderneiros. Ou quando agentes alfandegários paralisam as atividades, e o comércio interno e externo são afetados, e produções são interrompidas ou perdidas, não li, nessas oportunidades, nenhum editorial dedicado a ‘meter o pau’ na categoria, dizendo que prestam um desserviço à população.

Veja agora a greve dos servidores do Judiciário no Rio, que estão há quase 2 meses em greve, reivindicando reajuste de 7,3% nos salários. A ALERJ aprovou aumento de 5%, contrariando o pleito dos servidores e puxando o saco do governador, e o movimento paredista foi mantido. Estão errados, os servidores? Claro que não. Se não mobilizarem, acabarão jogados na vala comum, como as polícias civis e militares. Se fizerem como nós, deixar o tempo passar assistindo sentado a inflação comendo o poder de compra dos salários, já era, para recuperar é um martírio, o que vivemos agora.

Daí eu pergunto: a Polícia é assim tão importante que, um dia que seja, a paralisação de suas atividades afeta tanto a população e a ordem pública?

É, eu também acho que sim. Mas então porque tanto descaso com as condições de trabalho dos policiais, porque tamanho ódio generalizado dirigido aos servidores como um todo, que trabalham, e muito, para tentar reverter o caos que o próprio governo criou no estado?

Seria por causa dos policiais corruptos? Ora, desses nós também não gostamos, e por isso exigimos uma corregedoria forte, para expurga-los dos quadros. Por causa dos policiais preguiçosos que tratam mal a população? Ora, desses nós também não gostamos, e para isso existem opções legais à disposição do governo e da própria população, como punições previstas no estatuto, ouvidoria, etc.

Taí. Não entendo mesmo. Se é tão importante, por que não cuidar com a devida atenção?

6 ideias sobre “É importante ou não?

  1. Muito feliz a comparação do nosso não direito de greve, com o direito de greve de outros órgãos.
    Penso que os governantes nos julgam por eles mesmos.
    Eles acham que todos são corruptos e que por receberem propinas astronômicas, nós também recebemos, e portanto não precisamos de aumento de salário.
    Em todo cesto existe algumas frutas podres em meio as outras, mas por causa disso não precisa jogar o cesto todo fora!
    Nós somos mais visados do que outras categorias porque temos o dever de detectar essas frutas podres nos cestos, mas principalmente no nosso cesto. Mas às vezes algumas escapam aos nossos olhos.
    Só que os olhos da sociedade não se voltam para ela própria, estão arregalados e binoculados em cima da polícia.
    A polícia é importante para a sociedade? É sim, quando a sociedade precisa dela, só nesses momentos!

  2. Por isso, Eduardo, que o policiamento ostensivo nunca será civil.

    Se a Polícia Civil entra em greve, só dá transtornos para quem precisa ir numa Delegacia. E têm pessoas que nunca, durante a vida toda, precisaram entrar numa delegacia. Eu mesmo não vou à uma Delegacia como solicitante há anos. Então, é menos perceptível apesar de causar transtornos. E mesmo assim, muito mais perceptível do que o judiciário, por exemplo.

    Se o policiamento ostensivo entrar em greve, aí todo mundo sentirá falta. Em resumo: FUDEU! Então, nada melhor, do que ter ele impedido pela Constituição da República de entrar em greve.

    É dura a realidade do poder…

    Abraços

  3. Valeu Junior, deu um trabalho danado porque não saco nada de programação de sites hehe tentativa e erro na veia! 😉

  4. Não se iludam com o direito de greve da justiça, lá só tem greve consentida. O que facilita é que, a não aprovação do nosso pl, que é feito pelo presidente do TJ, é uma afronta a separação dos poderes, então o nosso “chefe” consente a greve. Bem diferente com o pessoal do executivo, que tem por chefe o próprio “rei” do executivo e do legislativo (na prática, né).

  5. Valeu Debora, sumida!
    Em verdade só observei que as críticas são muito mais pesadas e ácidas quando são determinadas categorias que paralisam as atividades. Porque será?

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