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De Plantão na DP

Publicado em 03/09/2008 - Categoria: Crônica Policial

Durante uma investigação de pequeno vulto, Charlie acabou descobrindo um esquema de sonegação fiscal de uma série de restaurantes de uma rua tradicional do centro da cidade. Ele coletou tantos dados quando pôde, e fez um relatório completo noticiando diversos crimes contra a economia popular e administração pública, e protocolou em sua delegacia, esperando um despacho para autorizar o início formal das investigações. No dia seguinte o boletim interno da polícia trazia o nome de Charlie, transferido para uma delegacia do outro lado da cidade.

Não se incomodou, sabia que a punição era temporária e que em semanas conseguiria voltar a trabalhar próximo de casa. Dois dias depois, apresentou-se em sua nova lotação, sendo escalado para preencher a mesa de plantão, no atendimento das vítimas. Lá ele dividia a tarefa com outro policial, que pouco depois entrou de licença médica.

As 24 horas de plantão eram cansativas. Na verdade pareciam durar bem mais do que 1.440 minutos, contados um a um no velho relógio de pulso. Ele não fazia investigação alguma, e o trabalho era cansativo mas fácil, apenas colocar no papel os relatos das vítimas.

O problema é que o prédio onde funcionava a DP era um lixo. Frequentemente com falta d’água, paredes cheias de mofo, e infestada de insetos. Vez ou outra pegava-se pensando como seria bom se os ratos que passeavam de um lado para outro comessem todos aqueles mosquitos.

Durante o dia, conseguia sair da mesa de plantão para almoçar e ir ao banheiro, graças à ajuda de um policial de outra seção que segurava as pontas, ou mesmo do rapaz da limpeza, que decorou a frase “O Sr. pode aguardar um pouquinho? É que o policial daqui foi resolver um problema rápido e já está voltando. Se quiser pode voltar mais tarde que ele te atende…”.

Durante a noite era pior. Acabado o horário de expediente, só Charlie e o carcereiro ficavam na DP. O carcereiro ficava trancado com os presos nos fundos da delegacia, observando em um frenético regime de revezamento a televisão com sinal chuviscado que passava um filme antigo e o sistema de câmeras das celas abarrotadas de presos. Cumpria pena em regime fechado parcelado, sempre dizia.

Uma noite, por volta de 23:00 horas, Charlie atendeu uma vítima de roubo de carro. Fez o registro enquanto tentava telefonar para a central comunicando a ocorrência, para que o veículo passasse a constar como roubado. Essa era a pior parte. Os dois números de contato só davam ocupado, a tarefa normalmente consumia mais de uma hora em tentativas. Desta vez durou mais, só dava ocupado, ocupado, ocupado.

O relógio marcava duas da madrugada, Charlie atendia uma vítima de agressão, quando o telefone tocou.

– terceira DP, boa noite.
– Quem tá falando?
– É da delegacia, policial Charlie falando, quer falar com quem meu amigo?
– Aqui é o Dr. Pompeu da corregedoria. É você o encarregado do plantão de hoje?
– Pois não corregedor, sim, só tem eu aqui, era para ter outro policial, mas…
– Olha só, eu quero saber porque teve um carro roubado que foi registrado aí e até agora a central não foi comunicada?

Charlie respirou com força, puxando todo ar que podia, e começou a emendar palavras.

– Olha só, sr. corregedor, eu tô sozinho trabalhando nessa porcaria de delegacia caindo aos pedaços, não tem nem água para beber, já pedi uma porrada de vezes para colocar mais um aqui para dividir comigo. Estou há 13 horas aturando bêbado encrenqueiro, criança chorando e um monte de reclamação que, diga-se de passagem, quem devia ouvir é o governador ou alguém aí de cima…

Fez uma pausa. Silêncio total do outro lado da linha. Ouviu um suspiro.

– E ainda, minha mulher não pára de ligar porque eu tenho que dar um jeito de pagar a droga da conta de luz que está dois meses atrasada e vão cortar. Tô morrendo de vontade de cagar mas não posso sair da mesa porque toda hora chega alguém para fazer RO, e mesmo que desse nem dá vontade de ir no banheiro aqui do plantão, que parece o esgoto da cidade. E a porcaria do telefone de contato com a central para comunicar o roubo de carro só dá ocupado, todo plantão é isso. Não sei se nêgo tira a porra do telefone do gancho para ver novela ou se não dão conta do serviço por lá também, mas o fato é que se você ligar pra lá e conseguir ser atendido hoje, eu dou minha bunda, dou a bunda, tá entendendo?

Charlie parou de falar e ficou ouvindo o silêncio no telefone. A mulher que estava sendo atendida, que reclamava do som alto na casa do vizinho, mastigava um chiclete e olhava para baixo.

– Tudo bem então, policial, boa noite – despediu-se o corregedor, desligando logo em seguida.

O plantão acabou, Charlie foi para casa. Imaginava para onde seria transferido antes do próximo dia de trabalho. Não foi. Assumiu o plantão seguinte.

Quando fazia mais um registro de injúria, calúnia e difamação, o delegado titular entrou na DP, e quando passava em frente ao plantão virou-se para Charlie:

– Você é o Charlie?
– Sou eu dr.
– O dr. Pompeu mandou um abraço – disse rindo, e subindo as escadas.

Charlie ficou mais três semanas no plantão da 111ª DP, sem ser incomodado. Depois conseguiu uma transferência para uma delegacia próxima de casa.

9 comentários »

  • Paulo PCSP comentou:

    Véio, se você aí quer entrar na Polícia, esse é o mais perfeito relato da rotina de trabalho que eu já vi na blogosfera policial. Não tem que por nem tirar nada. Aqui você só é respeitado quando se trabalha certo e ainda toma, explode, fala a verdade nua e crua pra todo mundo ouvir, principalmente superior (delegado). Aqui em SP a coisa não é diferente não, Eduardo. O interior tá cheio de DP f… e sem funcionário. Se vacilar já era: em cidade pequena o adicional é menor e se trabalha que nem escravo. E ainda falam que é tranquilo. Vai lá pra ver. Abraço.

  • José comentou:

    Muito bom!

    Quandi vi que era do “Charlie” vim direto ler. E como falamos outrora, a escolha é nossa mas quem se f@#$%& é a família.

    Parabéns Eduardo!

  • Márcia comentou:

    É como te disse da outra vez: Charlie não é mole não!!
    Valeu, ainda mais, pq todo charlie – que trabalha – tem essa resposta entalada na garganta.
    Parabéns! Charlie não tem mais…pelo menos por enquanto…
    E que venha novo concurso!

  • José Ricardo Supébi Monteiro comentou:

    Muito bom, como de praxe.

  • Eduardo comentou:

    Paulo, não duvido nada hehehe

    José: é verdade, a gente só sente os efeitos com o tempo, o corpo cansa e a mente fica lenta e só depois sabemos porque. Mas os familiares sentem o peso desde o início.

    Márcia: hehehe

    José e todos: puxa, obrigado pelo incentivo, vou acabar achando que minhas crônicas são boas hein ! hahaha

  • Bernardo Carvalho comentou:

    ja li todas as crônicas e gostei muito.Tanto pela escrita e pela cadência, quanto pelo conteúdo das crônicas. Fico apenas um pouco desanimado ao saber da minha futura rotina… “/

    mas n vou deixar de prestar um serviço decente a sociedade e dar continuidade ao meu sonho.

    Parabéns pelo blog e até o próximo post

  • Rodrigo comentou:

    A VERDADE É ESSA MESMO!!!!!!

  • Manuela comentou:

    Esse texto caiu no P.E. da minha escola . {Futuro Vip, SJM}

  • josdag comentou:

    Meu irmão, adoro este blog, experimente este site que ainda está em construção – http://WWW.humorpolicial.gratix.com.br – adoraria ouvir sua opinião.

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