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Nem Pense Nisso

Publicado em 01/08/2008 - Categoria: Notícias em Análise

Se existem os não desonestos na Polícia, porque não fazem nada? Esta pergunta é comum ao popular que não consegue enxergar a maldade por trás das notícias. Diga-se de passagem, é uma indagação muito justa, afinal não é exigível que o homem comum entenda de tudo um pouco. Mas é necessário que, se não temos conhecimento, o procuremos antes de nos manifestar, coisa que pouco fazem articulistas que desperdiçam linhas nos jornais.

É difícil atuar contra os grandes mafiosos. Que trabalhador, em sã consciência, vai virar para seu chefe e dizer “Te-je preso!”. E não adianta, a experiência nos mostra, e impossível que qualquer esquema de corrupção ou extorsão vingue por muito tempo sem a conveniência e participação da cúpula. Não é crível que um secretário de receita faça contratos obscuros com empresas fantasmas, e isto não chegue aos ouvidos do governador. Não é crível que um ministro faça o mesmo sem conhecimento do presidente do país.

Para atuar contra o crime, se esta é a vontade do servidor que ali está, é necessário fazer vista grossa aos grandes esquemas. Caso contrário, ele nunca conseguirá fazer o que dele se espera, pelo ao menos. Se um cara entra para a polícia, e espera prender bandidos, deve selecionar bem seus bandidos, e a alternativa é a famosa geladeira. O que, aliás, já começa a perder o sentido, especialmente no Rio.

Se antes, quem suportava os grandes esquemas, os quais “sabe-se que existe, mas não se tem provas”, ou “conhece o milagre mas não sabe o nome do santo”, agora começa a se ver em uma sinuca de bico. Por um lado, a vista grossa permite que ele faça algo de bom para a sociedade, e ao mesmo tempo trabalhe no que gosta. Por outro, com o efetivo diminuto, burocratização e má gestão dos órgãos, nem mesmo os “ladrões sem padrinho político” são alcançáveis. O policial civil no Rio, ou se alistou no grande exército civil, participando de operações “mata traficante pobre” ou tornou-se um digitador. Sim, pois os que permanecem tentando realizar a atividade fim da polícia judiciária, nada podem fazer. Soterrados por comunicações de crimes, algemados por um programa informatizado feito por quem não entende de investigação, nada mais fazem estes policiais do que abastecer um imenso e fabuloso banco de dados. Investigar? Comunique o roubo de seu carro em uma delegacia, volte 4 dias depois, e veja o andamento da investigação. Experimente com moderação.

E aqueles que ousam bater onde magoa? Não ficou em segredo o afastamento do delegado federal que, desafiando o ilimitado poderio econômico que rege a política no Brasil, atreveu-se a investigar um banqueiro. Desculpas foram rascunhadas, mas nas entrelinhas a verdade é clara, tão clara quanto repugnante. Mais sorte teve o juiz que autorizou. Se por um lado, ele pode dar adeus à qualquer chance de promoção, por outro poderá continuar seu trabalho como titular da vara criminal.

Outro caso recente, fresquinho aliás, foi o desbaratamento de um esquema de falsificação de carteiras de habilitação em São Paulo. A delegada já foi afastada do caso e transferida da corregedoria. Não estou afirmando nada, quem disse foi o promotor que cuida do caso. Segundo ele, o que houve foi uma retaliação, pois a delegada foi imparcial, e não soube escolher, dentro dos costumes, o bandido a ser preso. Na polícia é assim, tudo uma questão de escolha. Se escolher bem, ajuda no combate aos pequenos delitos e é entrevistado. Se escolher mal, babau.

Trata-se pois daquela velha questão, da inamovibilidade para as autoridades policiais. Mas, convenhamos, é um assunto já muito batido, e que não tem muita chance de prosperar, já que há inúmeros interesses contrários. Seja a disputa por vaidades e atribuições entre polícia civil e militar, seja pela disputa pela investigação com promotores, seja pelo interesse político em manter o status quo. Voto, pois, pela completa mudança e reestruturação da forma como se organiza e interage as polícias no Brasil. Assunto extenso, a ser abordado em diversos posts, que com a ajuda dos leitores poderemos começar a pautar. Mas esperem um pouco, vou bolar um esquema para debatermos aos poucos, por partes, como Jack o Estripador, figura que se existisse hoje nunca seria presa, ao menos no Rio.

Agora, encerrando: estes cidadãos exemplares, dignos e cheios de moral para reclamar da (in)segurança pública, que obtinham habilitação de forma fraudulenta… são tão idiotas assim a ponto de não conseguirem passar nestes ridículos exames do DETRAN? Ou é melhor fazer valer a Lei de Gerson? Sociedadezinha hipócrita.

12 comentários »

  • Soares comentou:

    Quando você diz, que apesar de discordar do quadro o melhor a fazer vista grossa, entendo perfeitamente, em outras palavras diz que o problema é conjuntural e a solução só se dará a longo prazo.

    A corrupção no Brasil não será enfrentada se continuarmos aceitando o diagnóstico de que é um problema moral.

    Penso que só poderemos enfrentar a corrupção, conjuntamente, não enquanto um cidadão isolado, tipo um D Quixote de La Mancha, e sim numa verdadeira ação pública, se houver distribuição de renda, diminuição da pobreza. Do contrarário, o estômago de nossos filhos sempre será usado para nos dissuadir de qualquer tentativa de contribuir para o bem coletivo.

    Ora, se um delegado da policia federal sofre represálias, imagine um cidadão comum, desarmado e com orçamento restrito? e com estômago.

    Tenho sérias restrições ao tipo de político que prospera no Brasil, mas a política do bolsa escola, renda mínima do Governo Lula é o caminho. O problema é que existe o Toque de M nesse país que tudo o que se faz na política em favor dos mais fracos vira merda, a imprensa logo desqualifica, e aos magotes são arregimentados intelectuais para criarem um prognóstico de inutilidade de políticas de justiça social.

    Enfim, sem trabalho, sem renda as hierarquias que naturalmente existem em toda sociedade vão se tornar relações de força.

  • Raphael Ferrari comentou:

    A verdade é que os bons, buscando conforto e tranquilidade, omitem-se, pois ser alienado é algo muito agradável.

    As coisas só começarão a mudar quando os bons se unirem contra os maus, utilizando a logística desses, isto é, organização e comprometimento.

  • Raphael Ferrari comentou:

    Enquanto isso, a luta continuará a ser travada entre algumas formiguinhas isoladas (bons) e vários elefantes enormes e organizados (maus).

    RAPHAEL FERRARI
    Policial Estadual – DAS/PCERJ

  • Eduardo/RJ comentou:

    Soares, a sociedade é corrupta e criminosa, a primeira mudança deve ocorrer neste aspecto, as instituições são tão somente reflexo do caráter da maioria da população. Temos que ir desfazendo a lavagem cerebral que os governos e a imprensa fez, e cuidarmos da educação das decadentes famílias brasileiras. E a internet é uma poderosa ferramenta, que cada vez mais é acessível. Devemos explorá-la.

    Ferrari: a bitolação, a alienação, é o estado de espírito mais confortável que existe. E o brasileiro adora um conforto…

  • Arthurius Maximus comentou:

    Um texto brilhante e elucidativo. Contudo é importanteressaltar que uma velha e boa denúncia anônima acompanhade de uma boca no tombone para um órgão de imprensa de respeito, muitas vezes, resolve o caso.

  • Débora comentou:

    Ótimo, Eduardo! Mas vou cobrar de novo: os bastidores do inquérito…
    Não entendo como se desvenda um crime na base do “oficie-se”, “intimem-se”, “junte-se”, carimbo, firmo, selo etc.
    O Caso Isabella me pareceu um exemplo da não funcionalidade do inquérito. Posso estar falando besteira, mas… o “chefe” teve que ouvir e um pobre coitado digitar umas 40 pessoas que foram até lá dizer a mesma coisa, sendo que tais depoimentos só serão válidos em juízo, qdo haverá contraditório? É assim mesmo que se investiga? Não seria mais fácil e mais funcional se, na hora do crime, policiais munidos de um MP3 ou simples bloquinho entrevistassem as testemunhas e de posse de dados pessoais dos mesmos apresentassem diretamente ao MP? Se houvesse contradição, aí tudo bem, faz-se uma acareação, mas transformar um delegado em entrevistador e um escrivão em um assassino de árvores pela intensa “produção de papel”… sei lá, não me pareceu muito útil.

  • Bradock comentou:

    Bom dia Amigos,

    Concordo plenamente com o Soares e digo mais o Eduardo esta coberto de razão em dizer que a sociedade é corrupta. Hoje eu Policial Militar, faltando apenas um ano para a minha reforma, coloquei meu nome a apreciação dos eleitores no proximo pleito eleitoral para uma vaga na Camara Municipal e vejo que esta mesma Sociedade que clama por honestidade e um basta na corrupção é a mesma que tem me procurado e dizendo “Se você for eleito, você arruma um emprego…”, “Se você quizer, pode colocar seu nome no muro lá de casa, me ajuda com R$400,00!!”, “Posso colocar seu adesivo no meu carro me ajude com a gasolina!” é isto aí minha gente, eles cobram honestidade dos Politicos e principalmente da Polícia mais não dão exemplo. Acho que o nosso defeito vem lá da colonização. Um forte Abraço a todos.

  • Desanimado comentou:

    Eduardo, mais uma vez, parabéns pelo excelente texto. Só discordo da suposta alienação, pois na pcerj não tem bobo, todo mundo sabe como a banda toca.
    Infelizmente, na atual conjuntura, a pcerj não é capaz de cortar na própria carne(onde deve ser cortado, é claro), rezemos então pra que um órgão externo(PF,MP…) o faça.
    Débora, concordo com vc, falta só combinar com nossos “çábios” legisladores.
    Abçs.

  • Eduardo/RJ comentou:

    Arthurius: nem sempre dá certo. A mídia em questão tem que estar interessada, ou seja, enxergar um instrumento de barganha para dar publicidade a determinado fato. Às vezes é impossível achar um interessado…

    Débora: sim, tô devendo a continuação do renegado IP, mea culpa. Tentei escrever esses dias mas o trabalho consumiu todo o tempo hehe em beve… 😉

    Bradock: vai vendo… difícil né, o rabo do outro macaco é sempre mais chamativo…

    Desanimado: sim e não. No que você quis dizer, concordo também, ninguém é bobo de não saber de nada. Por outro lado, tem colegas que são tão alienados e têm condutas tão infantis que parece que sim.

  • bradock comentou:

    Eduardo, mais uma vez você foi brilhante, eu nunca pensei em ser político e hoje me vejo debatendo sobre o assunto, porém, tentarei honrar a nossa classe tão desgastada, dos Servidores do Sistema de Defesa Social, e ainda, lanço aqui uma proposta EDUARDO 1010. Vai amadurecendo esta ideia, e caso eu seja eleito por aqui, poderá contar com o meu apoio. Um Forte Abraço.
    Bradock

  • Eduardo comentou:

    Bradock: que isso! Hehe não acho que eu tenha condições psicológicas de suportar um mandato heheeh

  • アボダーム 小型犬種用 comentou:

    アボダーム 小型犬種用…

    Delegados que investigam são afastados…

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