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Da Turma do Microondas

Publicado em 12/05/2008 - Categoria: Crônica Policial

Curiosidade de plantão: muita gente (muita mesmo, e isso é legal), sobretudo o pessoal que está se preparando para prestar concurso para algum órgão policial, envia e-mail pedindo para falar mais das ocorrências e “casus” do cotidiano da Polícia. Então vou tentar falar de alguns também nesta seção.

Este aconteceu por esses dias.

Já por volta de 15 horas a Base recebeu uma informação sobre a localização de traficantes na turística e política favela da Mangueira, Zona Norte do que já foi chamado de Cidade Maravilhosa. Rapidamente uma equipe com o pessoal de plantão foi acionada, embarcaram no Pacificador e se dirigiam para o morro.

Com o apoio do helicóptero Águia, o grupo de marginais locais se dispersou, mas um ficou encurralado, e a equipe de terra conseguiu localizá-lo. Ele estava com uma mochila completamente abarrotada de entorpecente pronto para venda aos ávidos consumidores cariocas, tudo já embaladinho.

A primeira coisa que chamou a atenção foi a diversidade de drogas transportadas por um só mulambo. O meliante (vamos chamá-lo assim) estava com mais de 300 papelotes de cocaína; uns 21 tabletes pequeno de maconha prensada e mais um grande com 1 Kg da mesma droga; quase 300 sacolés de maconha picada; 50 sacolés com Crack; 47 sacolés com haxixe; e 30 frascos de “cheirinho da loló” ou “lança perfume” (clorofórmio).

Enfim, o dito cujo já estava bem enrolado devido à quantidade de entorpecente. Chegando na Base, para lavratura do Auto de Prisão em Flagrante, encontramos na mochila, além de das drogas, munições cal. 12 e 7,62. E também uma carteira de identidade em nome de outro cara. A explicação para ele estar com a identidade de outra pessoa foi que “trata-se de um viciado que fez um rolo na boca e ficamos com o documento por garantia”…

Iniciando os trabalhos, perguntamos sobre quem deveria ser contactado para avisar que ele estava preso, que indicasse um familiar. Ele nos deu o telefone de um tio, para quem ligamos: “Boa noite, aqui é da Polícia Civil. Queremos informar que o Fulano está preso. Ele vai falar com você agora.

Daí passamos o telefone pro bandidinho falar: “Oi tio. Pô, fui preso, pede pra minha mãe trazer uma roupa… é… Não, não tem conversa…“. Putz, o cara preso, o tio recebe ligação da DP comunicando o fato, e ainda tá pensando em negociar a liberdade do criminoso! Sim, uma situação à qual a criminalidade por aqui se habituou, mas conosco não!

Depois de rirmos um pouco, continuamos nos trabalhos, levantando informações sobre o menino. Ora ora, o cara estava foragido da Justiça! Tinha um Mandado de Prisão em aberto depois de ter sido condenado por 157. É roubo, e no caso dele, com emprego de arma de fogo e concurso de pessoas. Mais uma pra conta dele.

Continuamos vasculhando, e não encontrávamos nada sobre o dono da identidade que estava com ele. Até que consultando Registros de Ocorrência de outras delegacias descobrimos que o infeliz estava morto. Motivo: homicídio provocado por queimaduras!

Os traficantes do Rio, como todos sabem, mantêm um tribunal informal, no qual julgam seus desafetos, e uma das penas (a mais comum) é a morte no microondas. Pega-se o infeliz devidamente amarrado, e o enfia em um buraco, normalmente uma pequena caverna de pedra nas encostas dos morros, joga-se combustível e taca fogo. Uma morte agonizante destinada aos traficantes rivais ou policiais eventualmente seqüestrados durante assaltos.

E o sujeito ainda fica com a identidade do morto! Ta pedindo mesmo. Mais uma que ele vai responder, já que entrei em contato com a DP que está investigando a morte e vou mandar cópia de tudo.

Mas provavelmente o infeliz nem vai chegar a cumprir toda a pena. Vai ser condenado de novo, cumprir alguns meses e sair da cadeia num desses indultos de Natal, Páscoa ou Dia das Mães e não vai voltar. Vai ficar na favela, quem sabe descer pro asfalto e roubar uns carros, talvez matando mais um cidadão pagador de impostos. Até que um dia ele vacila na boca e vai ele próprio pro microondas. Ou vira estatística de alguma Operação Policial. Enfim, o futuro dele nós imaginamos, o que é difícil saber é quantas pessoas mais ele vai prejudicar até o fim.

4 comentários »

  • Morte por Microondas | O Blogue do Janio comentou:

    […] Às vezes eu esqueço por que assinei determinados fides que estão no meu Google Reader. Hoje lembrei por que eu assino o Caso de Polícia ao ler a crônica Da Turma do Microondas. […]

  • Pedro futuro CORE comentou:

    Quem esse merda pensa q é???Pensando q pode subornar , olha isso!
    Voces deveriam roubar a alma dele isso sim.

    Direitos Humanos para Humanos direitos…..

    Abraço a todos da poliçada,tenho fé de q um dia irei trabalhar com voces.

  • Unious comentou:

    Prezado Du,
    que bom vc ter voltado ativamente ao casodepolicia, trazendo assuntos pertinentes do meio policial que interessa não somente a classe, mas a toda sociedade.
    Desejo a vc, sucesso, progresso, força e honra!!!
    Saudações,
    Unious

  • Eduardo/RJ comentou:

    Valeu Unious, agradeço o apoio!

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