Polícia do Rio e 007, Licença para Matar

Eu estava aguardando para fazer este post após a estréia do Tropa de Elite nos cinemas, quando poderemos conhecer as impressões de muito mais gente que não viu a versão pirata do filme. Mas acho que já deu para termos uma idéia, e na verdade já li em outros blogs praticamente a gênese do que pretendia abordar.

A começar pelo post do BSP da semana passada:

“Por mais que muita gente queira, as polícias não podem aceitar o papel de faxineiras sociais. Até porque matar traficante não reduz o tráfico. Assim fosse, o RJ já estaria livre desse mal, pois desde que Brizola saiu do poder a polícia mata muito, mas o tráfico e a criminalidade em geral no RJ continuam em níveis inaceitáveis. Grande máquina de enxugar gelo.”

E ainda com o comentário da Bela, leitora do BSP, que reproduziu em duas frases o que deveria ser um pensamento básico para quem pensa em ser policial ou como dizemos, “fazer polícia”.

“Afinal, sem respeito às leis qual seria a diferença entre bandidos e policiais?
A polícia precisa é se organizar – como neste site – e colocar a boca no mundo para denunciar a violação de seus direitos.”

E para sacramentar, o post do Pauta do Dia:

“1º- lógico que não se pode generalizar. há muitos oficiais que honram a farda – assim como há muitos praças que fazem o mesmo;
2º- há corruptos e honestos em todas as unidades da PM – e o Bope é uma delas. não é verdade que nos batalhões “comuns” só existem maus policiais, assim como não é verdade que no Bope só existem bons policiais.”

Cena do Tropa de EliteDepois do sucesso do filme, observem a quantidade e o nível da maioria dos comentários deste nosso antigo post falando do BOPE. Vê-se que a idéia de eficiência policial é diretamente proporcional à capacidade em se expressar na língua portuguesa.

Ah, bando de adolescentes você diria, mas experimente ler por exemplo no sítio do jornal o globo, uma notícia sobre uma ação policial que resulte em mortes de bandidos. Observe a coluna de opinião dos leitores. É a Lei de Talião aplicada. É a autorização para que a Polícia faça seu serviço ao arrepio da Lei. Lógico, enquanto não fizermos o mesmo com os moradores de bairros nobres.

Alguns policiais têm uma teoria para explicar o momento em que os criminosos cariocas ao invés de fugir da Polícia, passaram a caçá-la. Remetem a uma chacina promovida por PMs em uma favela, onde foram mortos moradores que segundo informações não eram traficantes propriamente, mas seriam coniventes e dariam informações e guarida para os marginais. Tudo teria começado Fiz concurso para ser Policial, e não Carrascoquando PMs se desentenderam com os traficantes que pagavam para poderem vender drogas sem interferência, e estes marginais acabaram assassinando os PMs dentro da viatura. O Governo e o Comando Geral da PMERJ não tomou posição, não esboçou reação, e então um grupo resolveu fazer justiça com as próprias mãos. Como disse, não sei direito a história, apenas o que li nos jornais e relatos informais de outros policiais. Mas eu não acho que tenha sido esse o ponto de mudança.

Quando Brizola assumiu o governo do Rio, tomou excelentes medidas na área educacional, porém instaurou o caos completo na área da segurança pública, proibindo que a Polícia fizesse incursões em favelas. Os traficantes tomaram força, continuavam a se abastecer de armamento, drogas e dinheiro graças ao consumo obsceno de drogas pelas camadas mais abastadas da sociedade, as mesmas que eram e ainda são chamados de “formadores de opinião”, os “seres pensantes” da cultura brasileira. Assim, os bandidos se armavam fortemente, e não tinham perda de material bélico, já que a Polícia não entrava nas favelas para apreender armas.

Daí chegou um momento em que a força policial começou a entrar para, como dizem os leitores dos jornais, “matar vagabundo”. Não adiantava se render, podia até não estar com arma ao alcance das mãos, se era vagabundo “ia de vala”. Então, já que não iriam presos, e iriam morrer de qualquer forma, porque não encarar e tentar se dar bem?

Enfim, são só teorias para explicar o que talvez seja inexplicável. Não tenho a intenção de adentrar nos devaneios insólitos e ridiculamente desestruturados dos “ólogos” especialistas em crime e violência. Certo é que é injustificável. Uma vez, após operação coordenada pela CORE, ouviu-se a seguinte frase no meio do tumulto de policiais e imprensa, com a apresentação de mais de 15 presos: pôxa, a operação foi muito boa, gostei muito de trabalhar com vocês, muito bem organizado. Só que vocês trazem muitos presos…

Eu fiz concurso para ser policial, e não carrasco. Se as leis são frouxas, se o Judiciário é corrupto, então ataquemos estes pontos. Não sou eu quem vou me arriscar a responder um processo por homicídio ou algo pior porque a sociedade, a mesma sociedade que cheira suas carreirinhas de pó branco, acha que bandido bom é bandido morto. A Lei permite que se mate, mas só em casos de Legítima Defesa, chama-se excludente de ilicitude. É feio mas tá escrito. E os policiais do Rio não são James Bond nem Jack Bauer. Não temos licença para matar.

Eu continuo indicando a todos que assistam ao filme sobre o BOPE, mas que se lembrem que é apenas um filme. Falam-se verdades, mas também constroem-se mentiras e mitos. Assistam ao filme com olhar crítico, comparem com as informações colhidas ao longo de vários anos de leitura das notícias policiais e formem uma opinião, não aceitem que uma coisa ou outra é a certa e assim se salvará a raça humana. Caminhamos todos para a extinção, isso sim.

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