Bondade sua governador …

O ultimo a sair que apague a luzO governador Sérgio Cabral disse à imprensa que de nada vai adiantar o desespero e sensação de lixo-humano que atingiu fortemente os servidores do Estado. O “aumento” de 18% líquidos e parcelado em 2 anos não sofrerá alterações, e os profissionais da Saúde, Educação e Segurança que se dêem por satisfeitos. Se quiserem ser reconhecidos pelo esforço individual, pela competência e dedicação, que procurem a vida fora do Poder Executivo do Rio.

Afirmou ainda que, contudo, aceita negociar outras coisas, como a melhoria nas condições de trabalho. Eu particularmente não entendi ainda o que seriam estas negociações, e só agora, depois de ler por dois dias seguidos nas manchetes jornalísticas a ficha começa a cair.

Nos oferecem, como moeda de troca, a possibilidade de executarmos melhor nossas tarefas. Em troca, paramos com os protestos e esquecemos as reivindicações e promessa feitas antes, durante e depois da campanha eleitoral.

Mas as condições de trabalho não são justamente os fatores que, aliados à dedicação e preparo do profissional fazem com que determinado serviço seja executado da maneira mais apropriada? Um professor dedicado e atualizado não consegue dar uma aula decente em uma sala escura, com cadeiras quebradas e calor insuportável. Uma enfermeira, por mais habilidosa que seja, não vai conseguir tratar uma ferida se não dispuser do material necessário, e o fazendo em um ambiente sujo e propício à infecções hospitalares.

Em verdade, acho que isso só valoriza os bons trabalhos que eventualmente a Polícia realiza. Porque se o Governo se mostra disposto a melhorar um pouquinho as condições de trabalho, quer dizer que elas não são boas. Eu afirmo que são as piores possíveis.

Muito se fala que apenas 3% dos homicídios são solucionados no Rio. Eu acho que esse número é absurdamente grande! Vejam, no Rio, desde 1º de fevereiro até o momento em que escrevo este post, 1.631 pessoas foram mortas e 1.016 feridas. Em outras palavras, em 7 meses, tivemos mais de 1.500 homicídios.

Quantos foram solucionados? Não sei, as estatísticas só são divulgadas de acordo com interesses políticos e azeitadas para serem entendidas de uma determinada maneira.

Quem investiga os crimes de homicídio, quem tenta apurar as circunstâncias, os motivos e a autoria são os policiais civis. Nosso estado tem 43.696 quilômetros quadrados, e calculo que cerca de 2 mil policiais  civis realizem investigações (explico como imaginei este número em post futuro). Investigações estas que abrangem todos os tipos de crimes, não só mortes violentas. O crime de homicídio não representa quase nada dentro do vasto universo de ilícitos apurados pela Polícia. Ainda.

Não temos condições de trabalho mesmo. As maquiadas Delegacias Legais estão se deteriorando devido à baixa qualidade do material usado naquelas estruturas pré-moldadas de cor amarela. O milionário sistema implantado nos computadores em nada auxilia o andamento das investigações. Lento e instável, o software desenvolvido para controlar as Delegacias serve como um enorme banco de dados, mas a inserção destes dados se dá de maneira sofrível. Se o policial não comprar para si canetas, grampos e grampeadores, e até papel não vai conseguir produzir nada.

Eu já fiz diversos locais de homicídio usando meu carro particular, com combustível pago por meus parcos vencimentos. Fiz intimações usando meu carro. Comprei selos dos Correios para fazer intimações através de carta. Eu deixava meu computador pessoal na DP onde era lotado para poder trabalhar. Eu participava de “caixinhas” para comprar tinta para impressora doada por outro policial, ou complementar o salário do pessoal da limpeza que tinha o pagamento cortado porque o governo deu calote na empresa terceirizada. Eu dei dinheiro e ticket refeição para policiais civis aposentados que estão passando fome! PASSANDO FOME DE VERDADE!

Será que são estas as condições de trabalho que o governo está nos dando a oportunidade de negociar?

Toda essa divagação não leva a lugar nenhum, só traduz a nítida percepção que tenho: a Segurança Pública nunca foi e provavelmente nunca será levada a sério no Estado do Rio de Janeiro. Problema nosso, cidadãos que não andamos em carro blindado nem contamos com segurança particular. Até chegar a hora em que nem isso vai adiantar. Aí, problema deles.

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2 comentários ↓

#1 Pedro em 24/08/07

Seus comentários são muito pertinentes. Vc é um bravo! Nunca desista de publicá-los.

#2 dupcerj em 25/08/07

Obrigado Pedr, acredite, estou tentando ;)

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