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Artigo sobre a Paralisação de 48 horas sem a edição do globo

Publicado em 19/07/2007 - Categoria: Notícias em Análise, Revolução PCERJ

Quando da época da pequena paralisação de 48 horas, com prazo de esgotamento de 2 dias antes da abertura do PAN, a equipe de edição do jornal do globo publicou um artigo de opinião, chamando a classe policial civil de chantagista para baixo.

Em edição seguinte, permitiu a publicação de um artigo do Delegado de Polícia Alexandre Neto, mas não sem antes editá-lo, cortar algumas partes, deixando-o sem sentido, e por fim incluindo um erro de concordância que não existia no artigo original.

Desta forma passei a procurar o artigo completo, sem a edição maliciosa do globo, tendo sido um leitor nosso, chamado José, quem indicou onde poderia ser encontrado o texto.

Então para quem leu o artigo picotado publicado no globo e não entendeu nada, leia o artigo completo abaixo transcrito.

Greve e polícia

Parece paradoxal, mas a greve na Polícia é algo bastante salutar. É, sobretudo, um novo sinal dos tempos, talvez inaugurado pelas ações de um propalado “Estado Policial” protagonizado pela Polícia Federal, tida como principal responsável pela invasão, sem aviso prévio, da “intimidade” de gabinetes de advogados, policiais, juízes, desembargadores e ministros acima de qualquer suspeita, onde um deles teria chegado ao cúmulo de blindar a coisa pública – seu próprio gabinete de trabalho – para livrar-se de eventuais escutas e investigações.Findou flagrado no gabinete do vizinho. E a blindagem de seu gabinete, pelo que se sabe, ainda não foi desfeita.

Mas é também sinal de que a própria Polícia, depois de se ver ultrajada com a prisão e execração de diversos agentes e delegados envolvidos com a costumeira e enraizada propina da contravenção, cujo dinheiro fácil ainda financia campanhas políticas e até elege deputados, não mais acredite no”milagre” sem o sacrifício de seus próprios pares. Não mais acredite em sua sobrevivência sem uma lei orgânica que a torne imune às ingerências políticas perniciosas aos interesses público e institucional. Esses, quem sabe, seriam os sinais que a sociedade estivesse almejando sentir para dar início às mudanças, pois quando a repressão ao crime se dá de cima para baixo é sinal de que os tempos são outros, até porque quem corta na própria carne dá mostras de que não hesitará em fazê-lo na pele daqueles que ousam em se locupletar às custas da fraude e da esperteza pessoal em detrimento dos interesses de toda uma classe que se mostra disposta a reagir a escândalos cíclicos e repetitvos.

Não se pode mais admitir que a gorjeta espúria e contaminada dos caça-níqueis se preste para colocar em dúvida a conduta de toda uma classe profissional, pois a regra velada e vigente perante a sociedade é a que diz que “todo policial recebe propina, até dar flagrante em contrário”. As ações da Polícia, por serem públicas, estão sempre sujeitas a toda sorte de críticas e dão mostras de que sem elas as coisas seriam bem pior.

Não se pode mais conceber que o “dinheirinho” do jogo do bicho se preste para consertar viaturas, ar condicionado, comprar papel, tinta para computador e, enfim, complementar o salário de alguns poucos privilegiados e ainda “ajudar” a suportar os custos de manutenção das unidades policiais, pois o estado, apesar de construir delegacias legais a peso de ouro, sempre alega não possuir recursos para pagar seus agentes, que se vêem obrigados a abdicar de suas horas de descanso para complementar seus vencimentos com o chamado “bico”, utilizando-se de arma e distintivo do Estado para patrocinar a segurança particular, em prejuízo da pública. Essa é a verdadeira chantagem a que se submetem a maioria dos policiais, que quando não morrem em serviço, morrem nas horas de folga.

Mas pelo que se vê, o chamado “Estado Policial”, ao contrário do que preconizam alguns, já contagiou a sociedade e inquietou a elite e sua honorabilidade, ainda que sujeitando-se ao vazamento de informações e às imperfeições de nossa incipiente democracia, que se constrói e se fortalece após a eclosão de cada novo escândalo envolvendo políticos que vazam dinheiro público, jovens que vazam violência e juízes que também vazam liminares, as quais, ao invés de garantir o interesse público, findam por premiar interesses privados e criminosos, mantendo-os intocáveis. Ao acenar com o estado de greve, a Polícia culminou por fazer, em última análise, a sua humilhante auto-execração, expondo à população as fétidas entranhas do Instituto

Médico-Legal, a sua débil capacidade de investigação,a sua primitiva condição técnica de aferir e coletar provas e a sua enorme disparidade salarial com as demais carreiras do estado, demonstrando à sociedade suas precárias condições de defende-la da sanha de criminosos e até de políticos e servidores públicos cujo parâmetro de comportamento se encontra muito próximo a dos vilões das penitenciárias e de alguns advogados que os defendem.

Ao se refugiar no estado de greve, a Polícia veio pedir socorro à população e expor sua insatisfação com a intervenção milionária de uma Força Nacional de Segurança Pública, criada em plena democracia mas ao arremedo da “Polícia Especial de Vargas” e ao arrepio da Constituição Federal, mormente porque o dinheiro gasto pela União a pretexto de utilizá-la em auxílio ao estado poderia ser revertido integralmente para a Polícia local, que não deixará a cidade e seus cidadãos após os jogos pan-americanos, findando por aumentar ainda mais o contraste entre a Polícia que existe e aquela que deveria existir.

Mas mesmo assim a Polícia não abandonará a sociedade que jurou proteger e servir, como também não hesitará em pleitear, dentro dos parâmetros legais do direito de greve, aquilo que achar justo para torná-la mais imune à corrupção, que jamais deixará de existir, pois já se provou que o verdadeiro crime organizado não é o das favelas da periferia paulista e nem aquele dos morros fluminenses. Ele está encastelado nos palácios e repartições públicas, vestindo terno e gravata e traficando influência para os “sanguessugas”, mensaleiros, empreiteiros e toda sorte de flibusteiros, tudo sob o manto de um foro privilegiado que os protege e que cada vez mais encontra pretendentes a seu abrigo.

O que a Polícia espera é que a sociedade exija do governo a segurança tão prometida em tempos de campanha. O que a sociedade espera é que a Polícia prometa cumprir o seu dever, ainda que o governo não cumpra suas promessas, pois só assim haverá vítimas comuns, fazendo com que a Polícia e a sociedade sejam, mais uma vez, os únicos enganados.

(*) Alexandre Neto – é Delegado de Polícia da DAS/RJ
Jéssica Oliveira de Almeida – Presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia RJ”

01 comentário »

  • José comentou:

    Valeu, não sabia que tinha ajudado tanto…

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