Militares fuzilam Militares e a Crônica da Tragédia Anunciada

Ataque a Delegacia A população sobrevivente do Rio presenciou mais uma série de tragédias, dignas de países do 5º mundo. A gang de jovens de família rica que espancaram e roubaram uma trabalhadora doméstica quando esta aguardava ônibus às 4:30 da manhã para ir para casa. Novos ataques de marginais à cabines da PM e Delegacias de Polícia. Balas perdidas, arrastão, roubos e demais ocorrências que se repetem incessantemente no cotidiano carioca.

Mas desejo destacar, dentre todas essas tragédias, o casal de militares da aeronáutica que foi fuzilado por policiais militares em Campo Grande, zona oeste da cidade.

Tenho lido algumas manifestações de ódio e reprovação aos policiais. Pois é, dou razão à elas quando imagino um familiar meu dentro daquele carro. Na verdade o mesmo já aconteceu com minha mãe, que voltando de um aniversário em Realengo com meu pai no carona, foi seguida por uma patamo da PM que suspeitou do veículo. Quando minha mãe percebeu já estava com um fuzil apontado para sua cabeça, e somente depois que o casal desembarcou do veículo os PMs abaixaram as armas aliviados. Explico: a viatura vinha seguindo o carro, e tinha ligado o giroscópio, piscado o farol, só não ativou a sirene pois (como em 90% das viaturas) estava quebrada. Minha mãe já não é nenhuma jovem, e não percebeu os sinais para encostar, e imagine o que se passava na cabeça dos PMs, tentando fazer parar um carro que acharam suspeito, cujo modelo tem grande índice de roubos na região, e o motorista não atendendo as ordens. Só parou em um sinal. Sorte nossa que os policiais, apesar de justificadamente tensos, tinham sangue frio e conduziram a situação de forma exemplar. Uma tragédia foi evitada por mérito dos policiais e pelo respeito que minha mãe tem pelas leis, ao parar no sinal de trânsito onde foi finalmente abordada.

governador e sua guitarra fuzilOs servidores da segurança pública vivemos em um intenso clima de insegurança, a qualquer hora podemos ser mais um número na estatística de policiais mortos. Somos alvos, nossa morte é motivo de comemoração e orgulho de marginais. Podemos sair para um dia normal de trabalho, ou mesmo em um dia de folga com a família, e nossos lares nunca mais tornarão a ouvir o som de nossos passos.

Agora a cena: policiais em patrulhamento em Campo Grande, salvo engano a área com maior número de homicídios no Rio. Um veículo Ford EcoSport, com alto índice de roubos e objeto atual de preferência entre traficantes já que é um veículo alto e facilita o manuseio de fuzis. Checada a placa do auto suspeito, o sistema acusa que trata-se de veículo produto de roubo. O motorista não atende as ordens de parar. O carro é protegido por película escura nos vidros, impossibilitando a visão perfeita de fora para dentro. Falta mais algum ingrediente para a tragédia ?

Não vou defender os policiais, mas também não vou ajudar a crucificá-los. Concordo que efetuar disparos contra o veículo foi uma atitude precipitada e nada inteligente; uma conduta incompatível com o bom procedimento policial e descoberta pelas hipóteses de exclusão de ilicitude como o estrito cumprimento do dever legal ou a legítima defesa; confesso que se fosse eu teria deixado o veículo escapar e comunicado por rádio, aceitando a possibilidade de ter deixado escapar uma boa prisão. Mas e os outros fatores que devem ser pesados neste tipo de situação, levando em conta a realidade de nossa maltratada cidade.

Será que o motorista não entendeu a ordem para parar ? Será que entendeu mas resolveu ignorar, aproveitando-se de sua patente como militar para “passar por cima” dos policiais ? Será que a ordem de parar realmente foi dada ou os policiais agiram impulsiva e irresponsavelmente ? Não sei, e mais do que isso, a imprensa não sabe. Não acredite em tudo que você lê nos jornais. Os anos de trabalho na polícia me ensinaram que toda verdade tem três lados. O da vítima, o do autor, e a verdade pura e simples. Essa última é o objeto da investigação que será levada a efeito pela equipe de policiais civis locais.

De uma forma ou outra, mesmo comprovando-se que o motorista resolveu deliberadamente ignorar a ordem policial, os servidores agiram além dos limites do razoável, e o quadro exposto neste artigo apenas explica, mas não justifica a ação dos PMs. Como é de praxe em nossa profissão, eles serão processados pelo excesso.

Polícia é isso, andamos em uma linha reta imaginária. Se pendermos para um lado, seremos acusados de omissos, ou tecnicamente de prevaricadores. Se pendermos para o outro seremos enquadrados como truculentos e praticantes de abuso de autoridade. Esse é o ônus da profissão policial, por mais que não vislumbre nenhum bônus que não seja o amor pelo serviço.

8 ideias sobre “Militares fuzilam Militares e a Crônica da Tragédia Anunciada

  1. Sinistro cara, novamente, como disse no artigo: como policial digo que é a maior furada atirar em um veículo que desobedece ordens sem saber mais ou menos se há alguém armado porque está arriscado a segurar até um homicídio, e como cidadão posso dizer que acho isso um absurdo, e imagino se fosse com um familiar meu.
    É uma mistura de falta de preparo com a tensão gerada pela violência iminente. Mas ocorrência estranha mesmo, vamos aguardar a apuração dos fatos por aí, nos comunique do resultado. Por aqui também tem que ser esclarecida a verdade, pois o carro constava como roubado no sistema (o que por si só não justifica os disparos), mas depende muito do que efetivamente o motorista fez. Aguardemos. =/

  2. Veja nessa matéria o resultado de uma perseguição conduzida com frieza e cautela. ( http://www.opovo.com.br/opovo/fortaleza/678477.html ). Agora é como você disse um vez em um dos seus post, “A verdade tem três lados”.
    Assim que ouvimos pelo rádio o alerta sobre o roubo de veículo com constragimento da liberdade (do proprietário) fomos em direção ao bairro do acontecido por uma avenida principal, cuja qual, achávamos que dificilmente eles viriam por ali. Mas por ser a principal seria a via mais rápida de acesso ao bairro. Porém, vem na direção oposta a nossa um carro com as características citadas e ao visualisarmos a placa percebemos que era o veiculo em questão. Fizemos o retorno mais próximo e começamos a perseguição. Como sabíamos que havia um refén tivemos a cautela de apenas dar as coordenadas pelo rádio às outras vtr’s e pedir apoio para fechar um ‘cerco’. Depois de quase 10 minutos seguindo o carro a distância, pois sabíamos que eles estavam armados e a qualquer momento poderíam efetuar disparos contra nossa viatura (de apenas dois homens naquele dia), a viatura da Ronda Escolar (de também dois homens) fechou um dos lados da avenida a qual iniciou-se a perseguição e eles depois de rodar por dentro de um bairro das proximidades retornou. Quando eles perceberam a viatura a sua frente pararam o carro e saíram três jovens de mãos erguidas e um senhor com um revólver. Percebemos logo de cara que o que estava armado era o refén, pois, no alerta o CIOPS (Centro Integrado de Operações de Segurança) havia informado que o refén poderia ter mais de 40 anos. RESUMO: Carro, dinheiro, celular recuperado, refén liberado sem nenhum arranhão, os três bandidos presos e tudo isso sem dar nenhum disparo.

  3. O uso de películas escuras nos vidros torna ainda mais difícil e arriscada a profissão ao qual escolhemos servir (seja os que já a servem ou os que irão servir, como eu). Eu confesso que sinto receio ao me deparar com um veículo dotado de tal característica. Geralmente veículos assim são abordados por um policial com a arma apontada. Dou razão ao policial. Afinal, resta ao policial imaginar “é ele ou eu”. O elemento dentro de tal veículo tem o fator surpresa ao seu lado e, portanto, está em vantagem em relação ao policial. Infelizmente a fiscalização de tais películas é irregular e fica cada vez mais difícil saber quem está no carro ao seu lado. A segurança que tais películas trazem é relativa. Ao mesmo tempo que marginais podem evitar a aproximação, podem preferir carros assim pelo fato de ficar mais fácil que os mesmos trafeguem tranquilamente sem serem reconhecidos.

  4. SOUSA: excelente conduta policial, demonstra que por vezes uma pequena alteração da realidade é o suficiente pra gerar uma grande tragédia e arruinar nossa vida profissional e particular. Parabéns.

    Marcelo: exatamente, quando um carro com películas se aproxima em algum local onde estejamos fazendo uma operação, ou em blitz da PM, o policial já fica tenso, podem ter 4 fuzis apontando para a cara dele. A população de bem em geral reclama quando fica sob a mira de armas, e não conseguem entender que o policial na rua não tem bola de cristal, e sua vida corre risco o tempo todo. E se você mora no Rio sabe que 90% dos carros tem película escura, e desses uns 30% é tão escura que não se enxerga nem o vulto do motorista.

  5. O importante é a gente não deixar de nos indignarmos. Quando a gente parar de se surpreender com isso tudo, aí estará tudo perdido.
    grande abraço

  6. so nao entendi porque os policiais estavam fora de sua area de atuacao.

  7. Julio: isso aí, quando uma coisa inadmissível passa a fazer parte de nossa normalidade, e quando tal coisa não nos surpeende (como os escândalos em Brasília), então significa que tem MUITA coisa errada. A indignação é positiva.

    Caio: pois é Caio, nós que acompanhamos o caso mais pela imprensa ficamos meio perdidos mesmo, isso é normal, já que o jornalista pergunta a qualquer um o que aconteceu, depois publica tudo sem pesquisar direito. A maioria das informações publicadas nos jornais (me baseando das ações que eu participei e foram cobertas) são imprecisas, obscurar, e por várias vezes até mentirosas e tendenciosas. SE eles estavam fora da área de atuação, ou deve haver um motivo que justifique, ou estavam fazendo algo que não deveriam, não descarto nenhuma das hipóteses, mas não vou jogar pedra sem saber da verdade, que daqui a pouco vai começar a circular pelos bastidores.

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