CORE vs BOPE ? Usurpação de Função ?

Coordenadoria de Recursos Especiais

Tenho lido, principalmente em alguns dos Blogs feitos por Oficiais da Polícia Militar, críticas ferrenhas à existência e atuação da CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais) da Polícia Civil/RJ.

A única explicação que enxergo para este tipo de visão é a mesma que atribuo à prática da imprensa no Brasil: preguiça. Preguiça de pesquisar, de se informar antes de externar opiniões sobre determinado assunto.

A CORE, cujo antigo nome era CINAP, tem a função de prestar apoio operacional às equipes de delegacias distritais ou especializadas, para investidas em eventuais áreas de risco, ou mesmo em operações em favelas para capturar os criminosos cujos Mandados de Prisão foram obtidos a partir de Inquéritos Policiais.

Sabemos todos que tais operações expõem a grande risco os agentes da Polícia Civil, e por isso esta equipe é preparada e treinada para dominar a área de atuação para que os investigadores consigam chegar com mais segurança aos objetivos da missão. Além disto, a CORE abrange outros setores, como o Esquadrão Anti-bomba, o Setor de Retratos Falados, etc. Para isso, senhores, é necessário o uso de helicópteros, veículos blindados, e tudo o mais que possa trazer eficiência e segurança aos policiais.

E digo mais: não é verdade que existam disputas e desavenças entre as equipes da CORE e PMs do BOPE. Afirmo isso porque eu pessoalmente tenho presenciado o trabalho em conjunto PCERJ/PM, e as ocorrências do BOPE são apreciadas diretamente na Base da CORE, onde não observo nenhum sinal de hostilidade, ao contrário, vejo constante troca de elogios, manifestação de vontade de novas operações conjuntas e comemoração pelo resultado frequentemente brilhante das Operações Policiais.

É notório o excelente treinamento dos soldados do BOPE, e afirmo com todas as letras que eles são os melhores na função pertinente àquele Batalhão. Porém são funções diferentes do proposto à CORE. Esta não foi criada para promover ocupações em favelas, intervir em guerra entre os narco-traficantes e outras missões que exijam sangue fio e heroísmo policial.

Contesta-se o patrulhamento ostensivo feito pela CORE (e também por Especializadas e Distritais), que seria uma atribuição da PM. Certo, é isso mesmo, é atribuição da PM, e nós, Policiais Civis também discordamos desta atividade! Não queremos patrulhar nada, queremos investigar. Mas como deve ser de conhecimento dos colegas militares, a Polícia é usada para política populista, e enquanto a Polícia Judiciária não tiver independência, não tiver sua lei orgânica, continuará servindo como massa de manobra politiqueira, em detrimento ao seu fundamental dever constitucional de promover a investigação criminal.

Por exemplo, em uma matéria do jornal O Estado de São Paulo, selecionada no site da Força Aérea, há relatos de PMs queixosos quanto à atuação da CORE em favelas, e ainda de a Polícia Militar não ser avisada das Operações: “‘A PM reclama muito da quantidade cada vez maior de tropas da Polícia Civil voltadas ao policiamento preventivo, funções legais da PM’. No Rio, a Polícia Civil criou a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), que tem homens treinados para incursões em favelas e conta até com carros blindados, os chamados caveirões, parecidos com os da PM. Embora o uso da Core em operações tenha diminuído, os PMs se queixam de não serem avisados de suas operações em favelas.”

Este ponto, da questão de serviço de polícia ostensiva, deve ser amplamente discutido e divulgado, mas não vamos misturar os tópicos, abordemos mais tarde este outro ponto.O que se pretendeu mostrar é que a função precípua da CORE não é competir nem invadir a área de atuação da PM e do BOPE, sua função é bastante diferente, mas tem sido manipulada e deturpada pelos útlimos governantes e sua demagogia, e é lamentável que isso não possa ser entendido por qualquer policial que se dedique ao ofício que escolheu para sua vida profissional.

Cotidiano Policial

Mais um plantão encerrado. Durante 15 horas ouviu vítimas. Ameaças, Lesão Corporal, e a tríade popular Calúnia, Injúria e Difamação. Todos os ROs foram feitos com indiferença, não tinha porquê se importar com aquilo.

Hoje, nenhum suspeito se apresentou. Possivelmente porque os Mandados de Intimação estão sendo enviados pelo Correio. Não tem viatura nem companhia para cumprir os Mandados pessoalmente. As viaturas estão todas na rua (todas as duas viaturas), e somente voltariam no fim do dia, como sempre sem nenhum preso, nenhuma ocorrência policial. Os “polícias” que ficam com as viaturas não devem mesmo ter sorte.

No tempo que arrumava entre um Registro e outro, aproveitava para imprimir outros Mandados de Intimação. Já tinha comprado outra folha de papel pardo, que depois de dobradas e coladas com capricho fazem um bom envelope para cartas, e mais barato. Também já tinha comprado selos em uma agência dos Correios. Era só dobrar a Intimação. Assinava, e ao lado assinava novamente no lugar do Delegado. Não o tinha visto hoje durante todo o plantão. Devia estar dando aula em alguma faculdade privada.

Um a um, nove Mandados de Intimação estavam devidamente envelopados e selados. Cada envelope preenchido à caneta pelo lado de fora, manuscrito “carta social”. Há muito tempo o Estado não fornecia aerogramas, então para não ser acusado de desídia funcional, lhe restava investir uma pequena parcela de seu salário em compra de material.

Fim do plantão, vai para casa. Vazia, todos foram trabalhar. Agora sim, um ambiente tranqüilo e relaxado, poderá estudar para acabar a faculdade de Direito e passar em outro concurso público. De preferência um cujo salário dê para pagar plano de saúde e aluguel e outras despesas pequenas. E que não o sujeitasse a ser executado se fosse pego por um marginal. Isso, o melhor é estudar.

Tomou um banho, sentou-se à mesa, abriu as janelas para entrar a luz do sol. 10 da manhã. A cadeira bamba, surrada pelo tempo, estava desconfortável. Sentou-se na cama, encostando-se na parede, livro na mão. Acordou com a buzina do padeiro em sua bicicleta, que passava na rua. 5 da tarde. Lamentou mais uma vez não ser forte o suficiente para vencer o sono. Tomou outro banho e foi para faculdade. Amanhã sai às 5 da manhã para fazer segurança privada e garantir o dinheiro para manutenção do carro e compra de roupas. Um policial tem que se vestir bem, a imagem é importante.